As caspiadas do Pão por Deus

Muito comum na área da antiga Flandres, de onde poderá ter influenciado os Açores na época do povoamento, embora este costume também ainda exista em Portugal Continental, o conjunto de cerimónias relacionadas com o peditório, chamado Pão das Almas, ou seja, a feitura dos bolos e o peditório destes, como forma de sacrifício (pelas Almas) assim como a manducação intencional do manjar, comido na crença de que desse modo os mortos tirariam algum benefício próprio, está ainda bastante activo, parecendo conservar, pelo menos em parte, a sua simbologia.


Outras dádivas fazem também parte do ritual.
A dádiva de dinheiro, por exemplo, integra-se numa outra crença segundo a qual os mortos devem levar consigo algumas moedas, que lhes permitam pagar ao barqueiro a viagem para o outro lado do “rio da vida”. Se não conseguirem essa quantia estarão condenados a não passar e a não obter assim o descanso eterno (esta crença fundamenta o hábito de enterrar os mortos com moedas nas algibeiras). Fazem também parte do conjunto outros alimentos rituais, que na Ilha Terceira, para além dos bolos, são castanhas e vinho ou licores (estes últimos oferecidos aos adultos, nas ‘visitas’ cerimoniais).


Veiga de Oliveira diz que na Terceira “… os rapazes correm as casas a pedir, e insultam em fórmulas consagradas quem não lhes dá nada” (Festas Cíclicas em Portugal, p.184). Não sei se este último hábito permanece.

As Caspiadas
Nos Açores (Ilha Terceira) os bolinhos, antigamente dados às crianças pelo Pão por Deus, chamavam-se caspiadas. O seu perfume e sabor requintado não se esquecem. É um autêntico manjar perfumado, que parece exalar o cheiro da Ilha. As caspiadas são pequenos bolinhos de cerca de doze centímetros de diâmetro, de base achatada e arredondados por cima, que Veiga de Oliveira refere como típicos da Terceira (citando Luís da Silva Ribeiro), e que algures na Europa eram conhecidos como o “topo de caveira”, por pretenderem assim imitar o crânio ou caveira dos mortos. Segundo Frazer, eram o que os Belgas chamavam o Pão das Almas (‘soul-cakes’ ou ‘soul-bread’), referidos por Veiga de Oliveira como comuns em Bragança, e aí chamado o “Pau das Almas”. Em Antuérpia levavam açafrão para ficarem mais amarelos e parecidos com os ossos envelhecidos…


“Topo de caveira”, utilizado nos rituais tântricos do Culto dos Mortos no Tibete
A tradição da utilização deste manjar ritual no dia dos mortos, poderá vir na sequência de um ritual tibetano, o qual serve-se do topo da caveira, considerada como a parte que contém o espírito e imitação da abóbada celeste, utilizando-a como taça, na execução de ritos tântricos, do culto dos mortos. Adoptada depois por algumas tribos célticas, criou profundas raízes na Europa. As caspiadas, como manjar ritual, poderão pertencer a este sistema de crenças de um ritual Europeu de milhares de anos, pertencente à mais antiga religião deste continente: o Culto dos Mortos.


“Topo de caveira”, utilizado nos rituais tântricos do Culto dos Mortos no Tibete
Na Ilha Terceira, são oferecidas às crianças no dia 1 de Novembro, tendo todas as características de um manjar cerimonial (receita especial, só feita em determinada altura), neste caso, fúnebre. As caspiadas não parecem ter perdido o devido enquadramento, pois quem as faz diz que as melhores são as que ficam com uma racha, o que (para quem conhece a ligação à caveira), lembra mais esta.

A Sra. Ana Barcelos cedeu a receita que se segue. Pelas quantidades dos ingredientes percebe-se a função do manjar, de oferecimento aos visitantes e às crianças do “Pão por Deus”.

Caspiadas (ou Escaldadas)
8Kg. de farinha de milho amarela (a amarela é mais macia e mais doce do que a branca), coada, ou passada em peneira fina.
2kg. de farinha de trigo
2 dúzias de ovos
2 kg. de açúcar
2 litros de leite
500grs. de manteiga
Canela em casca
Erva doce
Folhas de laranjeira azeda
Erva de Nossa Senhora

Fervem-se os ingredientes no leite e escalda-se a mistura das duas farinhas, à noite, ficando de um dia para o outro em repouso. Na manhã seguinte amassa-se a mistura com os ovos, açúcar e manteiga. Deixa-se levedar.
Fazem-se bolinhos do tamanho de uma mão fechada, que vão ao forno de lenha.
São mais apreciados os que ficam com a superfície rugosa, ‘arreganhada’. Na Bélgica diz-se que assim deixam ver as costuras dos ossos da caveira…