Noite das Almas
As celebrações do 1º de Novembro ainda existentes representam todo um sistema de pensamento (proveniente do passado arcaico e muito diferente do actual) que conferia à morte uma dimensão idêntica ou superior à da vida. Esse modo de pensar proveniente do médio Oriente e Grécia, acompanhou a evolução das sociedades, fortalecendo-se entre os povos Celtas e permanecendo no Ocidente, em nichos culturais, até há cerca de dois séculos. Vaso grego de 500aC. e Cruz Céltica Irlandesa
Em oposição ao materialismo que irrompeu nos tempos modernos, esse modo de pensar concebia o espiritualismo como um valor e atribuía à vida da alma uma importância tal que nem mesmo a morte do corpo a diminuía. “Sereias” (ou “espíritos”) representadas em vasos Gregos de IIIaC
Só neste enquadramento será possível compreender o comportamento social dos povos do passado, principalmente neste período de tempo (tão marcante para os primeiros povos Europeus), que vai do 1º de Novembro até ao Solstício de Inverno, prolongando-se mesmo até Janeiro/Fevereiro, e que era inteiramente dedicado aos mortos.
O Culto dos Mortos tinha por base a crença de que a alma não se aniquilava com a morte e de que os mortos continuavam vivos, embora numa outra dimensão. Essa crença tomava a forma concreta, que pode ainda agora ser avaliada objectivamente através dos monumentos e rituais dedicados aos mortos, ou seja, pelo dispêndio de bens e energias na sua realização.
A implantação deste pensamento na cultura Europeia, desde os tempos mais recuados, levou Fustel de Coulanges (La cité antique) a considerar o Culto dos Mortos ou a “religião da morte”, como a mais antiga dos povos indo-europeus. Rezava-se aos deuses (mais tarde, a Deus) pelos mortos, e rezava-se aos mortos endeusados (como a Deus), a pedir protecção. Vivia-se na sua dependência, quer por se temer a sua vingança, quer por se esperar o seu apoio. Sereias, Ulisses e os seus homens, IIIaC
O sítio onde eram sepultados os mortos (na fase em que foram sepultados, pois já foram incinerados, entre outras práticas funerárias) considerava-se campo santo. Por essa razão, por vezes eram sepultados em casa, ou muito próximo desta. Visita ao Necromanteion – Oraclo dos Mortos (em Afyra)
A entrada no espaço temporal (Novembro/Janeiro) dedicado aos mortos era marcada por uma actividade mais pronunciada à volta dos túmulos, de preparação para o dia por excelência - o 1º de Novembro - dia que se acreditava poderem os mortos, de forma misteriosa, rever os vivos, regressando a este mundo (embora invisíveis) e retomando contacto com a sua vida passada.
Esta crença, que atravessa povos e regiões geográficas tão distantes como o Bornéu, a Rússia e o México, adquire características específicas em cada local, tendo na Europa, no entanto, sofrido distorções, ao longo dos tempos.
A Igreja Católica, ao tentar extinguir esse Culto/Religião, atribuiu um carácter malévolo a essas “visitas” dos mortos, identificando-os com demónios e bruxas, o que alterou o sentido da crença, impedindo a sua evolução.
A noite das Almas, para os Celtas…
A noite de 31 de Outubro (Samhain, ou Summer end), marcava o fim do ano agrícola Celta (que começava a 1 de Maio). A simbologia que preside aos actuais festivais de fim de ano assemelha-se a esta, por ter sido transposta para Dezembro (fim do ano Romano, posterior ao Celta). A acrescentar à confusão de datas, causada pelos Romanos, junta-se a outra proveniente da Igreja Católica, a cuja doutrina os Celtas aderiram plenamente, o que implicou a mudança, por dentro (conceptual), das suas crenças e a perda de sentido das mesmas. Como povo de importância destacada na Europa, pelo menos desde o séc. VIII aC, os Celtas eram os herdeiros desse património de ideias.
Alguns costumes, no entanto, preservaram a lógica, sendo os rituais da chamada noite das almas, a 31 de Outubro, um dos sobreviventes dessa antiga religião. Instrumento utilizado nas “ofertas de fogo” (Tibete)
Como ritual central considera-se a construção de uma grande fogueira, para a qual toda a comunidade contribuía. Depois, miríades de lamparinas de óleo, tochas, etc., acesas nessa fogueira marcavam o caminho até às casas, ligando portas e janelas destas aos túmulos dos respectivos mortos, de modo a facilitar a visão do caminho àqueles que regressavam e impedir que se perdessem. Imaginava-se uma procissão macabra com a qual ninguém quereria misturar-se, pois na cauda vinham as almas dos mortos pecadores.
Os vivos que temiam este encontro, disfarçavam-se de animais ou vestiam roupagens que auxiliassem esse engano e afastassem os mortos (o actual Halloween é um vestígio deste costume). Máscara de Halloween, dia de Todos os Santos
Influência Católica
Com a mudança do dia dos mortos para 2 de Novembro (e só muito mais tarde, no fim do século X, relutantemente, passa a ser celebrado como Dia dos Fieis Defuntos), a Igreja Católica tentou reduzir este culto. Mas muitas das crenças a ele ligadas permaneceram. No entanto, ao colocá-lo junto do dia de Todos os Santos (que inicialmente se observava a 13 de Maio, mas que o Papa Gregório III mudou para 1º de Novembro) as duas celebrações identificam-se, pela semelhança de pensamento entre ambas: Dia de Todos os Santos e Dia dos Fiéis Defuntos. Assim, foi conseguida uma camuflagem tal que, como diz A. van Gennep, dificilmente se consegue discernir entre o que pertence a um e a outro. Leite de Vasconcelos também menciona que as crenças pagãs, revestidas durante vários séculos de um manto cristão, parecem agora assumir um carácter mais social do que religioso.
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