Castelo de S.Luís ou dos Moinhos (Memória)

 

O castelo denominado de S. Luís ou de S. Cristóvão, e também vulgarmente conhecido por Castelo dos Moinhos, por terem sido construídas, ali próximo, várias moendas, situava-se no cimo do outeiro mais alto, que domina do lado norte da cidade, a enseada de Angra.




Gaspar Frutuoso descreve este forte da seguinte forma: “ … Está esta cidade situada ao modo circular, quase redonda, em um baixo vale e nos outeiros que a cercam, em um dos quais, mais alto da banda do norte, está como amparo dela um forte castelo com munições e artilharia, novamente renovado e provido, sendo dantes mais fraco, edificado somente pera recolhimento de defensão dos moradores dela no tempo das guerras de Portugal com Castela, no qual castelo morava antigamente o capitão da ilha, Manuel Corte Real, e depois morou em outros paços, abaixo do mesmo castelo, com rico jardim de muitas laranjeiras e frescura, que ainda agora possui, o qual herdou de sua irmã, Dona Iria, que foi casada com Pero de Góis, nobre fidalgo.” *




Estas funções do Castelo (provenientes de um entendimento de defesa feudal rural), não tinham lógica na situação de Angra, pois os possíveis agressores viriam por mar. Cedo se aperceberam do erro, tornando-se necessário construir fortificações no porto de mar, sendo o Castelo desactivado.
Muito mais tarde, sobre as suas ruínas foi construído um monumento em forma de pirâmide quadrangular, que existe no presente, dedicado a D. Pedro IV, cuja primeira pedra foi oficialmente lançada em 3 de Março de 1845, pedra que foi também a primeira que no cais da cidade pisou o monarca, ao desembarcar na Terceira, em igual dia e mês do ano de 1832.




Por deliberação do município de Angra, o recinto foi denominado Praça D. Pedro IV, mais comummente chamado, à antiga, Castelo dos Moinhos, ou, à moderna, Monumento e Memória.
Pela falda sul do morro da Memória a Passagem Silva Sarmento desce ao jardim Duque da Terceira e pela encosta nascente desenha-se um pequeno bairro, o Pisão, que segundo todas as probabilidades, foi o primeiro núcleo populacional de Angra.




Antigamente, nas regiões expostas à pirataria e à guerra, os castelos alçavam-se em montes e penhascos de difícil acesso e, ao redor, se iam aconchegando as habitações da gente popular. O mesmo aconteceu em Angra e em relação ao castelo de S. Luís.
De começo o castelo de Angra não seria mais que um recinto fortificado, sem grande aparelho militar, onde o primeiro donatário fez sua moradia e por cujas seteiras os vigias de noite e dia espreitavam o mar.

A posse da ilha Terceira foi dividida entre Jácome de Bruges e Álvaro Martins Homem. Bruges começou o povoamento da Praia e Álvaro Martins o da parte de Angra, e foi este quem, ao alto do outeiro, construiu o recinto fortificado, onde fez moradia, ao mesmo tempo que construía os moinhos (dos quais ainda existem vestígios).




Só entre 1475 e 1480 João Vaz Corte Real veio a tomar conta da capitania e então alargou e embelezou os aposentos do donatário, onde passou a viver, ao passo que Pedro Anes Rebelo (este chegara do reino para exercer o cargo de provedor das fortificações) fabricava em redor, com os rigores da engenharia militar do tempo, o castelo de S. Cristóvam, provendo-o de grossas munições e artilharia. O Castelo foi simultaneamente guardião dos moradores contra possíveis agressores e feitoria de controlo de impostos sobre os cereais, principalmente os que vinham ser moídos nos moinhos do Castelo, construídos encosta abaixo, ao longo da ribeira.




João Vaz fez também edificar abaixo no vale, uns vastos passos nobres, cuja fisionomia gótico-mourisca bem demonstra sua provecta idade, onde veio a residir a sua filha Iria Corte-Real, casada com o fidalgo Pedro Gois da Silva, que num certo dia assassinou a esposa, num acesso de ciúmes.
Por morte de João Vaz, em 1496, sucedeu-lhe seu filho Vasco Anes Corte-Real. Foi donatário, sem nunca visitar as ilhas, explorando-as através dos feitores, um dos quais o Faleiro, deu o nome à rua (depois, do marquês – relativo ao marquês de Castelo Rodrigo).

O Castelo dominava também uma outra zona industrial resultante de um empreendimento de um sagaz aventureiro (talvez algarvio, vindo a tentar a sorte nesta ilha), de estabelecer engenho de pisoar pano, para o tornar mais liso e firme. A este engenho se chamava pisão (que deu o nome ao local).

Não se sabe quem era o dono do pisão. Mas sabe-se que era casado com Joana Dias. Do que se poderia duvidar era se o pisão tinha o destino de pisar pano ou pastel.

O padre Maldonado contava que Jorge de Ultra, primeiro donatário do Faial, fora quem trouxera a semente desta planta e, como era flamengo, compatrício de Bruges, certamente lhe ensinara o processo de cultivo e modo de fabrico da tinta que da mesma planta se extraía.
O certo é que o pastel se tornou a melhor cultura, a mais rendosa indústria, o maior comércio da Terceira.

O padre Cordeiro (História Insulana, Lisboa, 1866, Tomo I, pág. 278) descreve minuciosamente as diversas operações a que era submetida a planta (que tinha o aspecto de alface, a que se colhiam as folhas maduras por três vezes, em prazos determinados) até se transformar no pó que se exportava aos quintais.




As folhas eram moídas em engenhos para, espremido o suco, ficar apenas a massa, que, em forma de bolos ou pastéis, era disposta em tabuleiros a secar ao sol. Depois, em lojas ladrilhadas, os pastéis tinham de ser virados e revirados, até se desfazerem em pó.
O preço do pó ascendeu vertiginosamente, de dois tostões o quintal a mais de dois mil reis e o porto de Angra enchia-se de navios de Inglaterra, de Espanha, da Holanda, que vinham carregar a preciosa droga, usada na tintura de panos, especialmente para a cor preta.
Assim que na corte houve conhecimento deste rendoso comércio logo o Fisco, ávido, exultou e caiu sobre o negócio com a vintena de finta, além do dízimo usual - e adeus negócio. Quando em 1767 e, de novo, em 1773, o primeiro Capitão-General dos Açores, D. Antão de Almada, presumivelmente sob a influência do marquês de Pombal, quis restabelecer nas ilhas a cultura e trato do pastel, porque esta importante droga era muito necessária às fábricas então construídas no reino, teve que solicitar da Corte instruções para reduzir esta planta ao devido préstimo, visto que os lavradores da Terceira já não sabiam como se tratava a planta, como se granavam e secavam os pasteis.

Nesta data ainda existia e se conhecia a planta de onde se extraía os pastéis. Até isso, depois, se perdeu em definitivo.

O que parece inegável é que o pisão de Angra fez fortuna.
Na mesma ribeira dos Moinhos, acima do já existente, começou a construir-se um outro engenho, em nome e como propriedade do Capitão-Donatário.
Joana Dias, já viúva, por si e por seus filhos menores, ousou embargar a obra que prejudicava o seu moinho invocando uma decisão judicial que impedia quaisquer modificações na ribeira. Mas nada disso se realizou.
A pobre Joana Dias, para esgrimir contra o potentado, só possuía argumentos pouco menos que frustes.
Subindo um recurso ao Paço os senhores desembargadores decidiram a favor de Vasco Anes, apenas exigindo que o donatário tivesse licença do rei - licença que se não demorou e veio em carta, dada em Évora, aos 22 de Maio de 1544.
Vários dos terrenos e casas ao redor do Pisão vieram a pertencer a um rico cidadão de Angra, Jerónimo Fernandes de Cea.

Os Ceas não se poderiam dizer fidalgos filhados, mas eram gente de bom ser e qualidade que pelos seus bens, méritos e virtudes se distinguiram entre os principais repúblicos de Angra.

* Embora o cronista refira o preto, pensa-se que seria a cor azul.


Fonte:

Ruas da Cidade (notas para a toponímia da cidade de Angra, da Ilha Terceira), Henrique Braz, Instituto Histórico da Ilha Terceira, Angra do Heroísmo, 1985, p. 272 - 304