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Castelo de S. João Baptista |
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Quando em 1583, D. Filipe II de Espanha se apoderou da ilha Terceira, esta encontrava-se eriçada em obras de fortificação que a tornavam invulnerável aos ataques marítimos. Com o fim de conservarem o seu domínio, que sabiam ser odiado, os Castelhanos ordenaram a construção de um centro de resistência, obra que mais tarde seria avaliada em 704 contos de réis, soma enormíssima para a época. Esse Castelo situar-se-ia na raiz do Monte Brasil e ocuparia a maior parte do pequeno istmo que liga o mesmo ao resto da ilha. |
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Foi um castelo construído com todos os requisitos aconselhados pela experiência daquela época em obras desta natureza e o plano da fortaleza foi concebido pelo engenheiro-mór de Espanha, João de Vilhena. |
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A primeira pedra foi lançada em 1592, no lugar em que se ergueu o torreão de Santa Catarina, voltado a Oeste, sobre a baía do Fanal. A obra duraria cerca de seis anos. |
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Como homenagem a D. Filipe II de Espanha, esta fortaleza que liga alguns dos pequenos fortes já existentes nos fenais (baía do Fanal) e na baía de Angra foi denominada Castello de S. Filippe del Monte del Brasil de la isla Tercera, nome que lhe foi conservado até que, por alvará de 1643 passou a chamar-se de S. João em honra de D. João IV, embora anteriormente já fosse conhecido por Castelo de S. João Baptista. |
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As tropas espanholas estavam entretanto dispersas em diferentes guarnições, pela ilha, o que fragilizava o governo. Grandes somas foram colectadas. Impostos especiais em todas as ilhas flagelaram as populações. Utilizando materiais vindos de Portugal e Espanha e prisioneiros das galés como mão-de-obra, foi conjugado um grande esforço para a construção da fortaleza, uma das maiores do império espanhol, fora do país. |
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A pedra usada foi extraída do próprio Monte Brasil. Existem variadíssimas marcas, sinais ou letras impressas nessas pedras, gravadas bem visivelmente nas muralhas, pois parece que cada operário seria obrigado a assinalar as pedras que lavrasse para melhor e mais fácil verificação do trabalho produzido. |
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É constituído por uma cintura de muralhas, que nalguns pontos atingem mais de 20 metros de altura. Esta extensa muralha divide-se em cinco cortinas e cinco baluartes: de Sta Catarina, de S. Pedro, da Boa-Nova, do Espírito Santo e de Sta Luzia, numa extensão de cerca de três quilómetros. |
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Contra o poder do Castelo de S. Filipe - como então se chamava - foram impotentes os mais famosos almirantes ingleses: Dracke, Howard, Frobisher, o conde de Essex(*1)... |
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O castelo de S. João Baptista é um dos mais belos exemplares de fortaleza abaluartada que existem em território português. No seu conjunto arquitectónico destacam-se: |
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1) O PALÁCIO DOS GOVERNADORES(*2) , de construção espanhola, que foi, durante cerca de três séculos, a residência dos governadores do Castelo, espanhóis e portugueses, e fica situado na parada principal. |
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2) PORTAS FALSAS OU POTERNAS(*3) - No castelo existem duas dessas portas, sendo uma ao lado direito da porta principal junto à base da casa mata ali existente, que há muito foi entaipada e que comunicava com o interior da fortaleza por um largo recinto cavado na rocha de que o subsolo é formado e por uma galeria inclinada, servido por uma escadaria de pedra. A entrada desta galeria pelo interior da fortaleza é feita por uma porta aberta no maciço natural, junto do adro da Ermida do Espírito Santo. A outra destas portas falsas existe também entaipada na base da cortina junto à casamata do baluarte de Sta. Luzia, por trás do espaldão da carreira do tiro, sendo a entrada para a respectiva galeria, inclinada e construída dentro e na direcção da muralha que também era servida por uma escadaria de pedra que está entulhada. |
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3) CEMITÉRIO DO CASTELO(*4) - Em frente ao adro da ermida do Espírito Santo foi em 1923 descoberto o antigo cemitério do Castelo, do tempo dos castelhanos, com as sepulturas cavadas no tufo de que é formado o solo da praça naquele lugar, estando as ossadas envolvidas em grossas camadas de cal, tendo-se reconhecido, pelo estado dos respectivos ossos, que cada sepultura havia recebido vários cadáveres e em épocas diferentes. Consta que foi nesta praça que se iniciaram, na Ilha Terceira, as touradas de praça. 4) IGREJA DE S. JOÃO BAPTISTA(*5)( 1º monumento construído em Portugal após a Restauração) - Tomado o Castelo aos espanhóis, reconheceram os portugueses que a Igreja de Sta Catarina (actualmente ocupada pela sala de cabos e soldados) era pequena e pensaram construir um novo templo. D. João IV autorizou a edificação de uma igreja dedicada a S. João Baptista. |
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Aberta ao público em época que se desconhece, em 1818 foi destruída por um incêndio, só lhe tendo ficado as paredes. O edifício é bastante amplo, de duas torres, numa das quais está o relógio, e de três naves. Encimando a porta principal há o escudo das armas portuguesas em pedra. A frontaria é vistosa, de linhas correctas mas incaracterística. Sob o altar-mór há uma vasta cripta fechada por uma abóbada de arco abatido cuja entrada, numa dependência detrás do referido altar, é fechada por duas grandes lajes. Destinava-se à sepultura dos governadores e oficiais da guarnição do Castelo. Em 1871 as ossadas lá existentes foram transladadas para o cemitério do Livramento. Porém, em 1973 ainda era possível verem-se ossadas à mistura com terra, entulho e restos de madeira apodrecida. |
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5) PORTA PRINCIPAL(*6) - A Porta Principal, de fachada sóbria, é encimada pelo escudo das armas portuguesas, que por ordem de D. João IV em 1643, substitui as armas castelhanas. No ano seguinte o mesmo rei mandou colocar, abaixo das armas nacionais, um largo tarjão de pedra, com uma inscrição em Latim, que é uma invocação à Senhora da Conceição, que considerou como Protectora e Defensora do Reino, onde há anos ainda se lia o seguinte: |
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BEÁTAE VIRGINIS CONCEPTIONEM REX TIBI CONCEPTAE VIRG SINE HIC PRIMUS CIV JOANNES QUARTUS MO A tradução das três primeiras linhas da inscrição da portada é a seguinte: " À Santa Virgem da Conceição. A Ti, concebida sem mácula, o rei João IV jurou fé perante o orbe." Das outras palavras resulta a indicação de que foi D. João V quem cumpriu o voto e mandou ali colocar a inscrição e as armas, sendo governador do Castelo Manuel Escudeiro que, de facto, governou a fortaleza desde 1721 até 1727. Esta inscrição é a mesma que D. João IV mandou colocar em todas as portas e entradas das cidades, vilas e lugares principais de Portugal, sendo assim considerado este Castelo de lugar principal . |
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Outras curiosidades |
| Eram já tradicionais e decorriam com grande pompa, com variadas manifestações religiosas e profanas, as festas a S. João na cidade de Angra. No ano de 1641 (ano da restauração na ilha Terceira) estava-se em guerra com o Castelo e não se podia imprimir às festas o luzimento dos outros anos. Os castelhanos estavam atentos e sobre qualquer ajuntamento que viam na cidade faziam chover as balas de artilharia, embora quase sempre com fracos resultados. Nunca se descuidavam porém de o fazer, pelo que os terceirenses evitavam todos os cortejos, mesmo religiosos, e quando tinha de ir O Senhor aos enfermos procuravam-se sempre as ruas, que não fossem vistas do Castelo, para o trajecto. Mas a festa de S. João não podia ser olvidada e não o foi neste ano, a despeito da guerra. Durante o dia embandeiravam os castelos de S. Cristóvam e de S. Sebastião e os soldados "surriaram alegremente" pelas trincheiras e mesmo nos postos de combate estiveram hasteadas dez bandeiras. Pela noite adiante foram disparados nas trincheiras e redutos muitos tiros de arcabuz e de mosquete e alguns de peça e no reduto de António Gomes Peres, à Silveira, bem como no posto chamado Guiné, acenderam-se fogueiras. Com estas manifestações de regozijo gastaram-se, segundo o padre Sotto Mayor calculou, umas "três mil livras de pólvora" em honra de S. João e também do novo rei(*7). |
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O objectivo da construção do castelo, para além do de reunir o contigente militar, seria o de proteger o tráfego comercial com as Índias, hostilizado pela armada real inglesa. Com a passagem dos anos as situações alteraram-se, a falta de pagamento dos prés, as constantes rixas entre civis e militares e a revolta latente em Portugal, reflectida na Terceira, levaram os Espanhóis a restringir a sua actuação à área do castelo que tinham construído, acabando sendo sitiados pelos habitantes até à rendição pela fome e à morte de muitos. |
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Álvaro de Viveiros, então comandante do castelo, que se tinha prevenido com víveres para seis meses, teve que suportar um cerco de um ano, quando em 1642 se rendeu. |
| Passando para as forças portuguesas afectas a D. João IV, "o Castelo" teve sempre um papel preponderante sobre a cidade. - Ali se reuniu o Governo Provisório que se instalou na ilha e ainda depois, se estabeleceu a Junta da Real Fazenda, com os cofres públicos. - Foi também no Castelo que se estabeleceu a Casa da Moeda, instituída em nome da Rainha em 1829. - Foi a última fortaleza a hastear a bandeira da Monarquia. |
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O Castelo de S. João Baptista teve a sua importância não só na defesa da ilha, mas também como o primeiro ponto onde rebentou a heróica e memorável revolução liberal a favor dos direitos de D. Pedro IV e da Carta Constitucional. |
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Após as mudanças impostas pela evolução nas estruturas bélicas, várias outras utilidades lhe foram sendo apensas. Na 1ª guerra mundial, os alemães residentes em território nacional foram enclausurados no Castelo, sendo em 1916 o seu número superior a 400. Em 1918 porém já subia a 724. A população estabeleceu contacto com eles sendo "os serões artísticos do castelo" importantes ocasiões culturais, pois muitos deles eram artistas. |
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Marcas deixadas pelos construtores do Castelo. |
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*1 - BOLETIM DO INSTITUTO HISTÓRICO DA ILHA TERCEIRA - A inscrição da portada do Castelo de S. João Baptista da ilha Terceira" / José Agostinho, I (1943), p. 185, 186 *2 - Revista "Ilha Terceira", ano XI, nº 105, Out/1989 a Jun/1990 *3 - O Castelo de S. João Baptista da Ilha Terceira e a Restauração de 1640", Capitão Spínola de Melo, Angra do Heroísmo, 1939 *4 - O Castelo de S. João Baptista da ilha Terceira e a Restauração de 1640", Capitão Spínola de Melo, Angra do Heroísmo, 1939 *5 - O Castelo de S. Filipe do Monte Brasil", Major Miguel Cristóvão de Araújo, Angra do Heroísmo, 1973, Colecção Insula, nº5 *6 - O Castelo de S. João Baptista da ilha Terceira e a Restauração de 1640", Capitão Spínola de Melo, Angra do Heroísmo, 1939 *7 - BOLETIM DO INSTITUTO HISTÓRICO DA ILHA TERCEIRA - Restauração da ilha Terceira de 1641-42 cerco e tomada do Castelo de S. Filipe no Monte Brasil pelos terceirenses, Miguel de Araújo, XVII 1960, p. 38-116 |
Fontes: |
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"O Castelo de S. João Baptista da ilha Terceira e a Restauração de 1640" , de Capitão Spínola de Melo , Angra do Heroísmo, 1939 "O Castelo de S. Filipe do Monte Brasil" , Major Miguel Cristóvão de Araújo, Angra do Heroísmo, 1973, Colecção Insula, nº5 "Memória sobre a ilha Terceira", parte IV , Topografia , de Alfredo da Silva Sampaio. "As 18 paróquias de Angra", Pedro de Merelim, Sumário Histórico, 1974, p.695 |
Cronologia: |
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1583 – D. Filipe II de Espanha apodera-se da Ilha Terceira e manda construir um centro de resistência, o Castelo 1592 – é lançada a primeira pedra da construção do Castelo 1641/42 – a fortaleza torna-se importante no cerco que sustentou em que os terceirences conseguiram que os espanhóis se rendessem 1643 – o Castelo deixa de ser chamado de "Castello de S. Filippe del Monte del Brasil de la Isla Tercera" , para passar a ser chamado de "Castelo de S. João Baptista" - D. João IV manda substituir as armas castelhanas que encimavam a Porta Principal, pelo escudo das armas nacionais 1644 – D. João IV manda colocar, abaixo das armas nacionais, um largo tarjão de pedra que é uma invocação à Senhora da Conceição 1669 – o Palácio dos Governadores é escolhido para presidio de D. Afonso VI, até 1674 1721-27 – a fortaleza é governada por Castelo Manuel Escudeiro 1818 – a Igreja de S. João Baptista é destruída por um incêndio 1829 – estabelece-se no Castelo a casa da moeda 1871 – as ossadas existentes na cripta que se situa sob o altar-mór são transladadas para o cemitério do Livramento 1916 – o número de alemães enclausurados no castelo é superior a 400 1918 – o número de alemães enclausurados no castelo sobe para 724 1923 – é descoberto o antigo cemitério do Castelo em frente do adro da ermida do Espírito Santo |