Marcas de Posse

 

Mais vulgares na zona do Ramo Grande, mas visíveis um pouco por toda a Ilha, as “cartelas”, geralmente inseridas na fachada principal da casa de habitação, são registos esculpidos em pedra, com forma circular, rectangular e/ou oval, utilizados para várias finalidades e tipos de descrição.




Como “marcas de posse”, são usualmente preenchidas com o nome do proprietário e a data de construção (ou reconstrução) do imóvel.
Mas figuram também como suporte a símbolos protectores da casa e dos seus moradores, ou então a outros evocadores de diferentes credos. Neste caso, recorrem a uma linguagem esotérica, já quase esquecida, ou então mesmo desconhecida, confirmando intenções secretas, do passado.




Na sua grande maioria, as referentes ao primeiro caso são decoradas com motivos florais, em estilo barroco, enquanto que as outras quase se limitam ao reproduzir da simbologia em questão, com grande sobriedade de elementos adornais.




Mas, quaisquer que sejam as mensagens apensas nestas placas, funcionam num primeiro relance como motivos decorativos da fachada, ressaltando aos olhos do passante. Algumas são tão esteticamente elaboradas que deixam perceber a intenção de interferir, com a devida relevância, na harmonia da fachada. Outras terão sido retiradas de construções arruinadas e mudadas para “novas”, onde são inseridas de modo por vezes descabido e até absurdo.

Em todo o caso, a abundância destas placas na panorâmica habitacional terceirense é notória e causa uma certa surpresa, tanto mais que tal representação não parece existir nas outras Ilhas do Arquipélago, pelo menos com a mesma prodigalidade, conforme se pode inferir a partir da informação disponível no Inventário do Património Imóvel dos Açores – Instituto Açoriano de Cultura, e na Arquitectura Popular dos Açores - Ordem dos Arquitectos Portugueses.




Este comportamento e a preferência revelada pelos terceirenses será mais uma das idiossincrasias que caracterizam as sub-culturas insulares. A apetência pela exibição deste elemento, que embora não seja meramente ornamental, assume também essa conotação, seja em qual for das suas funções, parece indiciar que ele poderá estar a constituir-se como identificador de estatuto, e/ou de identidade cultural, acumulando tais funções às outras já referidas.




Neste caso, um estudo cronológico que permitisse estabelecer os limites temporais desta “moda” seria muito enriquecedor para o conhecimento da evolução dos sentidos apensos a estas marcas, agora vistas na qualidade de patrimónios.

As datas inscritas parecem variar entre o século XVIII e a actualidade (continuando a surgir, mesmo em casas novas), mas nada garante que edifícios de épocas anteriores que as possuíssem, não tenham sido destruídos. Daqueles que sobreviveram não parece existir referência para além das datas aqui aventadas, mas toda esta temática necessita ser aprofundada.