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Serretinha |
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A interacção de influências entre a cultura e a natureza está sempre patente nos Açores, quer devido ao clima e à sismicidade, quer ainda às tradições culturais/estéticas. |
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Ilhas de origem vulcânica, albergando os tipos de vulcanismo observáveis nos Açores, isto é: sujeitos a um constante fenómeno de crescimento, possuem vastas extensões de terreno muito jovem, que por isso é pouco arável e condicionado a limitadas formas de cultivo. A vinha tem sido uma das soluções mais adoptadas nestas situações, embora o alto custo da sua exploração, constrangida pelas variações do mercado de emprego, a torne muito vulnerável. |
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Estas condicionantes somadas às dinâmicas da vaga migratória, que agora faz retroceder das cidades para os campos massas populacionais já desligadas das fainas agrícolas, originam uma nova ocupação de terrenos e consequentes novos estilos habitacionais, ao invadirem as áreas de maior apetência. Entre estas encontra-se a Serretinha, um local pertencente à freguesia da Feteira (mas com muitos proprietários da Ribeirinha), onde se situam terrenos antigamente ocupados apenas pelas “curraletas” da vinha e por diminutas construções de apoio, habitados durante os períodos de faina do seu cultivo. Presentemente, e num espaço de tempo de uma meia dúzia de anos, descobre-se que as construções originais daquele local estão a dar lugar a uma invasão de novos estilos. Mas, ao contrário do que geralmente acontece com este fenómeno de substituição de habitantes, que geralmente não respeitam as condições ambientais do novo habitat, a Serretinha transformou-se num verdadeiro laboratório de arquitectura onde se podem observar autênticas obras de arte (no sentido de conciliatórias da cultura tradicional com as novas exigências) infelizmente a par de alguns modelos nitidamente “transplantados” de outros contextos. |
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Falando apenas dos primeiros, e tentando sintetizar aquilo que parece ter sido o denominador comum, adoptado pelos criadores dos novos estilos, na tradução dos valores culturais locais, referem-se três dos seus elementos dominantes: 1 – A pedra. Presente quer explicitamente, nas fachadas e muros circundantes, quer implicitamente, respeitada na estrutura do edifício e “sentida” na espessura das paredes e na irregularidade das suas superfícies. Os exemplares mais bem sucedidos não utilizam um basalto qualquer, proveniente de outros locais da ilha, mas têm o cuidado de adaptar o traquito local, que é resultado de uma erupção mais recente e que ainda mantém um aspecto agreste (razão de ser das “curraletas”) domando inteligentemente as suas arestas de modo a conservar apenas o melhor da sua rusticidade e cor local. Algumas das soluções encontradas para os arremates de ombreiras e esquinas são notáveis. 2 – A dimensão das pequenas casas das vinhas, as suas volumetrias e porte. Esta característica, sendo básica mas simultaneamente um obstáculo às exigências actuais, foi simplesmente ignorada na maioria dos casos. Porém, alguns modelos encontraram um modo engenhoso de respeitá-la, reproduzindo-a artificialmente em pormenores, como sejam, um pequeno anexo ou acrescento; ou então dividindo o grande volume da nova casa em pequenos blocos, aparentemente independentes. 3 – A inclinação do terreno. Sendo uma característica ambiental muito evidente, algumas opções procuraram respeitá-la, desenvolvendo a nova construção lateralmente, na horizontal, ou então em socalcos, tirando partido dos desníveis em pequenos volumes interligados, que contribuem para salientar o factor “pequena dimensão”. No entanto, outras construções opõem-se a esta interpretação do ambiente, utilizando soluções tecnológicas que se projectam no espaço, desfigurando grandemente a paisagem. |
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Na totalidade do conjunto, embora muito variado, é possível encontrarem-se muitos exemplos que respeitam estes três elementos impostos pelo ambiente, se não na totalidade do novo edifício, pelo menos em pormenores evidentes. Através destes é possível conseguir obter uma leitura do quadro paisagístico razoavelmente harmónica, aprazível e estimulante, no qual se reflectem aspectos representativos da identidade cultural Açoriana. Acrescente-se que, para surpresa, pode-se também constatar que a actividade vinhateira continua, por entre as novas funções. |
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Posteriormente, porém, surgiram grandes construções turísticas que deturpam e desequilibram este cenário. Não teria sido possível obter um modelo conciliatório, também para estes casos? E não teriam agora muito mais valor, não seriam muito mais apetecíveis, se os elementos ambientais dominantes tivessem sido respeitados? |
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