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Ramo Grande |
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Nas referências à Arquitectura Popular dos Açores, tida pelos conhecedores como sendo de óptima qualidade, surge sempre uma nota especial dirigida à arquitectura do Ramo Grande. No contexto Açoriano, onde a construção da habitação aconteceu um pouco anarquicamente, “qualidade” significa capacidade (quer criativa, quer adaptativa) de encontrar os equilíbrios certos entre os constrangimentos ambientais (climáticos, sísmicos, matéria prima, etc.), sociais (económicos e estatutários) e culturais (estéticos, simbólicos, etc.). Embora se suspeite que uma parte das casas de Ramo Grande resultou de desenho de arquitecto, para o homem comum, que foi o construtor da outra parte, durante alguns séculos, é um feito notável ter em consciência estes equilíbrios e chegar aos resultados que agora podemos apreciar. |
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Mas, na opinião dos peritos, a qualidade da arquitectura popular Açoriana é posta à reflexão ainda com outro destaque, generalizado à Ilha Terceira. Pensam que a qualidade que esta arquitectura apresenta, tornando-a referência em todo o arquipélago, se deve à pressão inicial que a ilha sofreu, desde o tempo das Descobertas, no sentido de uma evolução para a maturidade concepcional da construção, exigida pelo estabelecimento de relações e comunicações intercontinentais (sendo Angra o porto obrigatório de paragem do fluxo marítimo). |
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Dentro da categoria específica da Ilha Terceira, porém, a “Arquitectura do Ramo Grande”, como ficou sendo conhecida a área que compreende as Freguesias das Lajes, Vila Nova, Fontinhas e arredores, apresenta características especiais. Nela concentram-se realizações de um saber que necessita ser estudado. Nunca é demais salientar este bem patrimonial, uma vez que parece estar mais sujeito à depredação dos tempos modernos que os restantes. É ainda possível observar alguns bons exemplares dos modelos que deram lugar a esta classificação, mas infelizmente, consultando outros arquivos fotográficos, verifica-se que já muito foi destruído. |
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A Ordem dos Arquitectos Portugueses editou em 1999 um trabalho de recolha e teorização sobre a “Arquitectura Popular dos Açores”, começado em 1983, que facilita a reflexão sobre o que é verdadeiramente notável nestas formas arquitectónicas. Informa também, no entanto, sobre a destruição sofrida, pois neste espaço de cerca de vinte anos, grande parte dos exemplares lá retratados já desapareceu ou foi irremediavelmente desfigurado. Observando o que se passa na restante área da ilha, verifica-se que parece existir um comportamento diferente em relação aos outros exemplares arquitectónicos. Esta opinião, no entanto, é reservada pois não existe nenhum trabalho sistemático e actualizado de recolha. Mas mesmo nessas circunstâncias é possível detectar essa diferença, o que conduz a especulações. |
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Provavelmente, a resposta mais correcta será que o desaparecimento gradual dos modelos do Ramo Grande se deve a outra razão, um tanto paradoxal, ou seja: ao facto de serem estranhos ao meio e de, através deles, terem penetrado no mundo rural elementos geralmente pertencentes ao urbano, elementos racionais que, pela sua concepção logicista, se opõem ao contexto geral da arquitectura popular. A organização do espaço e das funções, assim como a estética dos modelos do Ramo Grande pertence a uma noção “clássica”, isto é, geométrica, racional, dominadora da “natura”, encontrada em geral no meio urbano e reflexo do controlo aí exercido sobre a natureza. Esta noção colide com a concepção “orgânica”, mais comum à vida rural, por se basear na intuição, uma forma de inteligência mais adequada ao entendimento dos sistemas ecológicos, dos quais depende a economia agrária. |
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Nesta hipótese explicativa não se depreende que a qualidade deste bem se reduza, devido à sofisticação que o caracteriza, pois nenhum modelo arquitectónico pode suprir, generalistamente, todas necessidades físicas e intelectuais de várias situações e épocas distintas. O que será necessário fazer, para suster a precariedade da sua segurança actual, é desenvolver modos de adaptação às vivências próprias desta época, que não comprometam as suas qualidades. Infelizmente isso não se tem verificado, caso contrário, não existiria uma desfiguração tão pronunciada como a que se observa agora. Levantam-se as coberturas para ângulos incompatíveis com a linha tradicional; criam-se autênticas barras acima das janelas (entre estas e o beiral), com a finalidade de facilitar um outro piso disfarçado; partem-se emolduramentos, pilastras e aventais em pedra para “ficar mais moderno”, enfim, desfigura-se criminosamente este património. |
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Para uma análise das capacidades de sobrevivência dos patrimónios arquitectónicos é necessário observar, neste caso, como se comportam as construções de linha orgânica na restante ilha. Como são feitas as recuperações de habitações e que modelos são procurados pela população e protegidos ou tidos como exemplares. Serão outros estilos, onde o classicismo e a geometria apresentam menos evidência? Talvez mais primitivos ou orgânicos e por isso, mais bem adaptados ao ruralismo? Esta temática será retomada a seguir. |
| As magníficas casas do Ramo Grande jogam com a paisagem, povoada por pequenas construções arcaicas (muros e palheiros) de estrutura e apoio às actividades agrícolas.
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Por entre arvoredo espreitam construções clássicas desta parte da Ilha.
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Bibliografia |
| "As 18 Paróquias de Angra" Sumário Histórico, 1974, de Pedro de Merelim, Angra do Heroísmo, Tipografia Minerva Comercial, pág. 83 "Memória Sobre a Ilha Terceira", de Alfredo da Silva Sampaio, Angra do Heroísmo, Empresa Municipal, 1904, pág. 233 |