Quintas da Laranja

 

As Quintas da Laranja, no lado oposto da Ilha, cobrindo uma área que inclui Terra-Chã, S. Carlos e Pico da Urze, podem ser consideradas como o contraponto do Ramo Grande, no que se refere a arquitectura de qualidade. No entanto, a natureza da qualidade desta arquitectura não se caracteriza pela adopção de alguns princípios do classicismo, como acontece com as outras.
Aqui, “qualidade” implica a consideração de princípios diferentes.




Ao dar uma volta por esta área, e alargando o seu perímetro até S. Bartolomeu e Cinco Ribeiras, tem-se a noção de um fenómeno de evolução que se terá processado de modo diverso do de Ramo Grande. Baseado numa interligação entre os vários níveis de sofisticação que compõem os modelos deste conjunto, desde os mais primitivos até às grandes construções, a evolução parece ter acontecido sem aparente ruptura entre eles. Os elementos que serviram de base a uns parecem ter sido “ampliados” ou adaptados para os outros, num processo de maturação e complexificação no qual não foram alterados princípios fundamentais.
Salvo excepções, não terá havido intromissão de novos princípios, exteriores à progressão evolutiva interna, como terá sido o caso da simetria rigorosa imposta pelo “classicismo” no Ramo Grande. A evolução aqui acontecida não se constrói sobre uma visão da natureza organizada e submissa, como a que deu origem ao classicismo.
Percebe-se que no conceito de exemplaridade, atribuída às grandes casas, esta é entendida como ultrapassando a preocupação com a estética clássica, a qualidade dos materiais, a funcionalidade implícita, assim como outros aspectos da construção, para se reportar a uma coerência adivinhada, que não resulta apenas do funcionamento, naquilo em que este se conjuga com as volumetrias, a distribuição dos percursos no espaço utilizado, etc., mas que se manifesta principalmente na variedade e criatividade das soluções encontradas, cada qual exprimindo sempre os mesmos princípios.




Constata-se esta criatividade ao procurarmos o “modelo”, ao tentarmos perceber o que é realmente valioso nesta forma arquitectónica, e ao verificarmos que a sua supremacia está precisamente na grande abundância de exemplos que produziu. Não existe um modelo que possa ser apresentado como o protótipo desta arquitectura, ao contrário da Arquitectura do Ramo Grande. Existe sim uma variedade e riqueza de soluções, cada qual mais apreciável, mais engenhosa e mais harmoniosa que a precedente, por se aperfeiçoar sem se divorciar do anterior, mas sim a partir deste.




A desafiar a reflexão sobre as hipóteses que o assunto suscita, acresce ter acontecido, nesta área da Ilha, uma recuperação respeitosa pelos edifícios mais antigos, permitindo que, em grande parte, não fossem desfigurados os seus elementos de raiz. No entanto, esse respeito foi sendo atribuído tanto à casa senhorial quanto à dos seus quinteiros. É assim que se vêm minúsculas casas, quase de brinquedo, cuidadosamente embelezadas, rodeadas de jardins, ao lado das casas de maiores proporções, ainda defendidas pelos paredões amuralhados, característicos desta zona. O princípio estético dominante é o mesmo, embora expresso em dimensões diferentes: uma harmonia que não se submete aos rigores da simetria.




O espírito que presidiu a estas construções é, provavelmente, anónimo. Mas exemplifica de modo objectivo, um modo de estar, uma cultura. Talvez também acontecesse o contrário: as construções a influenciarem os seus habitantes ao ponto de os diferenciar, como sugerem os teóricos que acontece. Poderá considerar-se que foi algum arquitecto classicista, promotor da Arquitectura do Ramo Grande, quem começou esta clivagem.




Mas viajando pela Ilha, e comparando as sensações deixadas pela observação da sua paisagem construída, tem-se a percepção de se estar em mundos diferentes, nestes dois sítios demarcados. É uma experiência interessante, que permite ajuizar da importância do papel da arquitectura nas vivências particulares e no social.
Construções aparentemente efémeras, na sua função de abrigo e protecção, acabam por transformar-se numa segunda pele, com a qual é fabricada parte da imagem exterior do indivíduo. A tradição, os costumes, as crenças e os valores, como vectores integrantes da personalidade individual, constam dessa imagem, estabelecendo uma linha de continuidade entre o passado e o presente, da qual não é possível separar um do outro sem um processo mental doloroso, correspondente à amputação de um membro ou mesmo de uma parte vital. A “saudade” indefinida, de que se queixam os emigrantes, como uma ausência de algo muito importante, poderá residir também nessa sua separação de formas exteriores significantes, onde estão plasmados os valores.




Uma materialização cuidadosa na arquitectura, dos valores incluídos na tradição, permite que essa “pele exterior” que a habitação representa, não destoe do todo que constitui o indivíduo, formando com ele um corpo único, proporcionando-lhe uma vivência coerente com a sua herança moral e estética. Baseada num diálogo difícil, porque mais adivinhado do que expresso, entre os símbolos escolhidos para expressarem os valores e a noção da sua validade actual, passos grandes têm sido dados no sentido de preservar a sua perenidade também através de novos modelos, em experiências que vão surgindo um pouco por toda a Ilha.