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Igreja da Misericórdia |
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Um relato do início do século XVI descreve a Igreja da Misericórdia como situada “… à saída do cais da Cidade, frente à sua Porta do Mar”. Esta era a noção da Ilha que tinham os constantes visitantes, mercadores e navegantes, que regularmente a ela aportavam: a saída do mar (seu local de maior permanência), em direcção à cidade. Para os habitantes que se foram radicando na cidade, a Igreja da Misericórdia ficava à saída da Rua Direita, em direcção ao mar… |
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A Igreja da Misericórdia tem uma longa história (em termos Açorianos). Foi mandada construir por João Vaz Corte Real, no último quartel de 1400. O templo actual, no entanto, foi edificado já em 1728, erguendo-se sobre a base do anterior, embora com uma orientação diferente. A primeira pedra deste segundo templo foi lançada nos seus alicerces em 21 Outubro daquele ano, pelo Bispo D. Manuel Alvares da Costa, e a Igreja benzida e inaugurada em 4 de Junho de 1746 pelo vigário geral Manuel dos Santos Rolim. |
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O sismo de 1980 impôs obras de restauro, que revelaram as estruturas da primitiva igreja de Santo Espírito, nas caves da qual foram encontradas sepulturas com as respectivas ossadas, colocadas em níveis sobrepostos, sendo possível visitar esta parte do antigo edifício através de uma entrada com alçapão, deixada disponível no chão do corpo principal da actual Igreja. |
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O ‘novo’ templo é constituído por apenas uma nave, com capelas ou altares laterais. De arquitectura elegante, tem grande parte das paredes ornamentadas com desenhos artísticos de boa qualidade, emoldurados em gregas. O frontispício é ornado com pórtico de cantaria, sobre o qual assenta o coro da igreja. O pórtico, no entanto, é acanhado e desproporcionado em relação à grandeza do templo, notando-se também a pouca altura dada ao frontão que termina a sua fachada. De cada lado deste elevam-se duas pequenas torres em quadriláteros, para sinos, terminando, cada uma delas, num pequeno zimbório de pedra. Por cima do pórtico, estão as armas reais, e a meio do frontão nota-se um pequeno nicho de pedra que parece ter sido criado para alguma imagem, e por ultimo uma pequena abertura circular que poderia servir para um relógio, tendo como remate uma pequena sineira que suporta uma cruz de ferro. |
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As janelas laterais do interior, lançadas sobre as galerias, apenas estão envidraçadas numa estreita faixa; tapadas com portas de madeira tornam a igreja um pouco escura. Por detrás da capela-mor (e sem ligação directa a esta) eleva-se a grande sala destinada às sessões da Mesa da Misericórdia. |
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A nave única do corpo interior do templo contém capelas metidas nas grossas paredes laterais, que sustentam a grande abóbada do tecto. Todas estas capelas são ornamentadas, principalmente a do Senhor Santo Cristo, protector de Angra, e a da Senhora Divina Pastora, correndo por cima de todas elas uma extensa galeria. A capela-mor é igualmente majestosa, imitando o mesmo risco e desenho da capela-mor da igreja de Nossa Senhora da Guia dos Franciscanos. Nesta capela está unicamente o Santíssimo Sacramento, e no corpo da igreja, estão três capelas de cada lado, abertas nas paredes laterais. Do lado do Evangelho, as capelas : - do Espírito Santo; - de Nossa Senhora da Natividade; - da Santa Cruz; Do lado da Epístola: - a do Senhor Santo Cristo da Misericórdia; - da Divina Pastora; - do Senhor Jesus das Chagas; |
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Sobre o pára-vento da igreja está um largo coro alto com órgão próprio. |
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Entre as imagens que se encontram nesta igreja, repete-se a menção à do Senhor Santo Cristo, padroeiro da cidade, não só pela escultura, como pela grande veneração que por ele tem o povo Terceirense, por ser considerada muito milagrosa. Esculpida em cedro por Bastião Vieira, de Santa Bárbara, era levada em procissão na altura de calamidades, como, por exemplo, quando foi benzer o Castelo de S. Filipe (agora de S. João Baptista), na altura da rendição dos espanhóis, ou a 15 de Junho de 1841, no terramoto da Praia. Por essa devoção, a Câmara de Angra elegeu, a 24 de Maio de 1707, o Senhor Santo Cristo como padroeiro da cidade. Após o terramoto de 1980, altura em que o culto foi interrompido na Igreja da Misericórdia, a imagem foi entregue à guarda do Museu de Angra. |
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Existiu também nesta igreja a Ordem de Nossa Senhora do Carmo com a sua veneranda Imagem. Em virtude do contracto feito em 22 de Fevereiro de 1766 com a Mesa da Misericórdia, a 17 de Março de 1804 foi transferida para a igreja do Colégio, obtendo para isso, despacho da Junta de Fazenda, o general Conde d´Almada dotado para isso, datando de 12 do dito mês a concessão do Bispo D. Pegado d´Azevedo. |
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O primeiro edifício da Igreja da Misericórdia, construído em finais de 1400s, vem descrito na carta de Linschoten como sendo orientado no sentido Oriente/Ocidente e ligada ao edifício do Hospital, sito na rua de Santo Espírito, por uma ponte que passava sobre esta. |
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A Casa da Misericórdia |
| A Casa da Misericórdia foi instituída por João Vaz Corte Real, a partir da Ermida de Santo Espírito. A sala destinada às sessões da Mesa da Misericórdia evidencia a relação anterior existente entre estas duas instituições. Documentos históricos confirmam que a Casa da Misericórdia e a Ermida de Santo Espírito foram legalizados como Serviço Hospitalar por D. João II, em 1492. Esta resolução foi confirmada depois por D. Manuel, a 3 de Agosto de 1508, dotando-a de rendimentos. No Hospital tratavam-se enfermos que chegavam nas naus, enfraquecidos pelas longas viagens. A renda própria do templo da Misericórdia, era por vezes integrada na do Hospital, constando as duas de foros de propriedades dos primeiros donatários, trigo da feitoria da Alfândega local e de dádivas da Casa Real. Destas rendas eram pagos médicos, enfermeiros e o sustento dos enfermos, cuja população aumentava também, com gente das ‘Ilhas de baixo’. |
Jan Huygen van Linschoten (1563-1611), um Holandês que viveu na Ilha Terceira entre Agosto de 1589 e finais de 1591, autor da obra Itinerário, Viagem ou Navegação de Jan Huygen van Linschoten para as Índias Orientais ou Portuguesas, é responsável por grande parte da informação, histórica e iconográfica, sobre a cidade de Angra, nela incluindo os desenhos aqui apresentados. |
Texto de Antonieta Costa, a partir de notas de Sampaio, Alfredo da Silva, “Memória sobre a ilha Terceira”, Imprensa Municipal, Angra do Heroismo,1904 |