Convento de S. Gonçalo
Este convento, o primeiro de freiras em Angra, foi criado a pedido de Braz Pires do Canto, pessoa muito influente, juiz eleito e juiz ordinário entre 1532 e 1566, que conseguiu obter autorização do Papa Paulo III para a construção do convento, expressa num breve de 7 de Outubro de 1541, quando começaram as obras que ficaram concluídas em 1545.
O convento era constituído unicamente por monjas com a invocação da Mãe da Esperança, da Ordem de S. Francisco, embora o seu patrono fosse S. Gonçalo, protector e ‘casamenteiro de velhas’. Esta discrepância poderá ter sido originada por funções semelhantes, de abrigo de pessoas de bom nascimento, mas sem posses , que exercia uma instituição com casa naquele mesmo local.
O novo convento iria ter como Abadessa ou Ministra uma monja e seriam chamadas duas ou três monjas experientes para instrução e ensino das novas monjas, de um ou dois outros mosteiros.
Era quase exclusivamente dirigido por mulheres, excepto o cargo de administrador que cabia aos sucessores de Braz Pires (eram eles que tomavam todas as decisões, em conjunto com a Igreja Angrense). O convento e seus habitantes estava legalmente protegido, de forma pouco usual. Se algum bispo ou outros prelados maiores, incomodassem de algum modo, Braz Pires, alguma monja ou até mesmo os sucessores de Braz Pires teriam, sob pena, a excomunhão de sentença já proferida. Ou seja, este convento estava protegido contra possíveis perturbações vindas de outros membros da Igreja, quer tivessem cargos superiores, iguais ou inferiores.
Visto o convento ter grandes dificuldades na sua gerência, devido à sua dependência da Mitra do Porto, a Abadessa e as monjas fizeram um apelo para que a gerência do convento passasse para o bispo de Angra. Por pouco o convento não foi mudado para o Porto visto estar a causar muitos prejuízos. A proposta era mudar o governo, o regime e a administração do mesmo, mas as monjas e a Abadessa contestaram e pediram que tal não acontecesse, ficando assim a gerência a cargo do bispo de Angra.
As monjas eram muito crentes e existem registos de que ocorreram milagres neste convento, como por exemplo: "A Madre Bárbara de Santo André, religiosa muito antiga e de grande virtude, quando morreu, lhe pediu uma freira que, quando se visse na presença de Deus, lhe pedisse que lhe desse água no seu chafariz, que havia anos que não corria; a irmã faleceu e no dia seguinte estavam duas bicas de água corrente, e correram daí por diante".
S. Gonçalo tinha facultativo próprio e talvez por isso é que em 1708 tiveram de admitir mais 100 freiras porque o prejuízo era grande e era necessário ganhar mais dinheiro e também talvez por isso é que tiveram de fazer alguns despedimentos para pagar os salários, mas mesmo assim o Convento nunca chegou à pobreza e mesmo sem dinheiro tinha um grande brilho e continuava com uma larga afluência de fiéis.
A arquitectura do convento conserva ainda um claustro, não muito amplo, em volta do qual se notam as varandas dos corredores superiores, assentes sobre arcadas. Entre essas varandas vêm-se 5 oratórios bastante deteriorados, onde existiam algumas imagens.
O edifício tem também um segundo claustro e um pátio que fica junto a um grande granel, com o costumado portão dos carros voltado a poente, para a estrada de S. Gonçalo.
Por detrás do coro ficava o cemitério, em seguida o quintal e, por último, a cerca. Junto à parte do coro e para o lado do adro, existe a portaria do extinto convento com a respectiva roda e parlatório, e um outro semelhante, a oeste, com frente para a estrada pelo Alto das Covas, junto ao passeio Público (rua de S. Pedro).
O convento foi extinto definitivamente pelo falecimento da sua última religiosa professa, a abadessa Madre Mathilde do Carmo, em 1885. Pareceu, no entanto retomar a sua primitiva função, visto ter sido concedida autorização a uma fundação com o título de Associação Educadora do Sexo Feminino, a qual instituiu uma escola primária para crianças. Ao fim de pouco tempo com as quotas dos benfeitores, por subscrição mensal, e com o produto de esmolas extraordinárias e subsídios da Caixa Económica de Angra, conseguiu obter um capital suficiente para distribuir jantares gratuitos aos pobres, e a baixo preço aos remediados, e ao mesmo tempo construir um edifício próprio. Neste edifício encontrava-se instalada a Cozinha Económica, com todas as suas dependências próprias, e a habitação da directora, que é a sua iniciadora.
Trabalho feito pelas freiras de S.Gonçalo
Esta nova (embora primitiva) função do convento teve várias designações, desde Sociedade Auxiliadora das Classes Laboriosas até Monte-Pio Terceirense. O número de sócios em Maio de 1862 era de 157 e em 31 de Dezembro de 1901 era já de 743 e possuía um capital de 40.170$863 reis.
A 16 de Outubro de 1891 foi criada uma instituição denominada Cofre de Caridade do Distrito de Angra do Heroísmo, fundada por Ignácio de Almeida Monjardino, que então exercia o cargo de governador civil. A instituição tinha como objectivo socorrer pessoas dando dinheiro ou ajudando estas pessoas que após sofrerem um desastre ficavam desamparadas.
A arquitectura do Convento influencia outros edifícios vizinhos, como este (Recreio dos Artistas)
O Cofre da Caridade socorreu as famílias dos pescadores vítimas da tempestade que em Novembro de 1892 fez naufragar vários barcos no porto da Vila Nova, construiu as casas que foram destruídas pelo ciclone de 28 de Agosto de 1893 e que pertenciam a pobres pescadores, principalmente na freguesia de S. Mateus e socorreu as vítimas da tromba de água que em 1900 caiu sobre a Serra da Praia arruinando algumas casas e terras lavradias.
Fontes:
Brás, Henrique, Ruas da Cidade, Angra, 1985, pp.365-371
Cordeiro, António,Pe., História Insulana, SREC, Angra, 1981, p.290
Cronologia:
1541 – Autorização papal para a criação do convento
1545 – Fim das obras de construção
1583 - Acolhe D. Violante do Canto, prisioneira do Marquês de Santa Cruz
1708 - o convento foi obrigado a admitir 100 freiras dados os elevados prejuízos; houve vários despedimentos para que os salários pudessem ser pagos
1862 - o número de sócios era de 157
1885 - o convento é extinto definitivamente com a morte da sua última religiosa professa
1891 - foi criada uma instituição denominada Cofre de Caridade do Distrito de Angra do Heroísmo
1892 - o Cofre de Caridade socorre as famílias dos pescadores vítimas de uma tempestade
1893 - o Cofre da Caridade constrói casas de pobres destruídas por um ciclone
1900 - o Cofre da Caridade socorre as vítimas de uma tromba de água que caiu sobre a serra da Praia
1901 - o número de sócios é de 743 e possui um capital de 40.170$863 reis
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