Convento da Esperança

 

O Convento da Esperança foi um monumento de grande dimensão, na Cidade de Angra. Ocupava o lado oposto à Igreja da Sé, no quarteirão imediatamente a seguir ao desta, não só em toda a extensão da frontaria, mas também para trás, no espaço de dois quarteirões, e para o lado da Rua da Esperança, onde o parlatório se estendia até ao espaço agora ocupado pelo Teatro Angrense.




É possível ainda verem-se vestígios, não só da sua configuração, como também alguns pormenores estruturais internos, quer no edifício do Banco Nacional Ultramarino e TAP, quer numa casa particular vizinha, ou ainda na configuração que mantém o Mercado Municipal (antigo claustro do Convento).

Tão nobre situação, no centro da cidade, deveu-se ao empenho de uma freira, Madre Isabel de Jesus, que foi do Faial (Mosteiro de S. João Baptista) procurar cura para os seus males em Angra, tendo em acção de graças resolvido construir o Convento, como reza a crónica:

Por meados do séc. XVI, a madre Isabel de Jesus, freira professa do Mosteiro de S. João Baptista, da cidade da Horta, deslocou-se à Terceira a fim de procurar alívio para uma grave moléstia de que sofria. Veio acompanhada do licenciado Marcos Pereira e da Madre Jerónima do Espirito Santo, religiosa de grande virtude, e tomaram pousada nas casas de Bárbara de Morais, sendo tratada «com os doutores Diogo Vaz e Francisco Dias, que achando-se completamente curada, resolveu manifestar ao altíssimo o seu reconhecimento, fundando em Angra um convento. Valeu-se de seu irmão Álvaro Pereira Sarmento, «pessoa de vastos cabedais» para conseguir obter do papa Paulo IV a bula necessária.

Tratou no entretanto de procurar sítio adequado ao fim em vista, concluindo por entrar em negociações com a própria Bárbara de Morais, mulher de Aleixo Gomes, escrivão de oficio, ao tempo «degredado da ilha, por certas cousas praticadas no cargo», para aquisição das casas que a mesma possuía na rua da sé, embora julgadas insuficientes.




Autorizada a constituição do convento pelo Papa Paulo IV, começaram as obras no ano de 1550, tendo como padroeiro da capela-mor o dito Álvaro Pereira Sarmento.
Segundo a reforma do Papa Urbano IV, o mosteiro pertencia a ordem de Santa Clara e à obediência regular, sendo da invocação de Nossa Senhora da Esperança.

Logo de início foram enormes as contrariedades sofridas pelas duas devotas fundadoras. Braz Pires do Canto, fundador e padroeiro do convento de S. Gonçalo, moveu-lhes uma guerra feroz, sem qualquer razão plausível, opondo-se com o seu prestígio e a sua fortuna à efectivação da pia obra, a ponto de ter criado às duas religiosas dificuldades sem número. Contudo, foram prosseguindo com tenacidade a obra encetada, vencendo, embora a custo, os obstáculos que se lhes deparavam.
Sentindo a necessidade de alargar as primitivas instalações, adquiriram no ano 1678, por ordem do padre provincial Fr. Manuel de S. Jerónimo, uma azinhaga, denominada «do Morrão» (ou Mourão), pertencente a João Vaz de Sam Miguel, que vinha da rua do Rego para a rua das Covas», a fim de nela estabelecerem a portaria do convento, uma casa contígua à de Aleixo Gomes, pertencente a um tal João Gonçalves, alfaiate, por alcunha «o Galego» e ainda um alqueire de terra destinado à cerca do mosteiro.
Com o mestre-de-obras Sebastião da Ponte foi contratada a edificação da igreja e capela por 36$000 reis, tendo-se iniciado os trabalhos em 1557, encontrando-se concluídos em 1560. Situava-se á esquina da Rua da Sé para a da Esperança.

Em 1582, quando das lutas a favor do «rei português», o convento foi visitado por D. António Prior do Crato, acompanhado por Ciprião de Figueiredo e pelo Conde Manuel da Silva. Esta homenagem, que não se estendeu ao convento de S. Gonçalo, derivou do facto de terem as freiras da Esperança apoiado a causa de D. António, enquanto as de S. Gonçalo, em grande maioria pelo menos, se manifestaram afectas a Castela.
Em toda a obra do mosteiro gastaram-se «835$846 reis», nele se albergando de início «19 pessoas fora os servos da casa», para alimento das quais «todos os sábados tomavam um tostão de carne, e pelas festas dois, e com eles faziam comunidade». O parlatório de convento ficava ao lado da Rua da Esperança e era conhecido por “Parlatório da Esperança”.

Após a extinção dos conventos, este foi vendido em hasta pública, pela Prefeitura da Província, em 11 de Abril de 1835, por 2 625$000 reis, tendo sido demolido e transformado nas actuais moradias. Anteriormente, em 1832, já tinha sido cedida à Câmara a “cerca” do convento, para nela ser instalado o mercado municipal (Mercado Duque de Bragança).


Lopes, Frederico, “Da Praça as Covas”, Editora Andrade, Angra do Heroísmo, 1971, Páginas-278 à 280.