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Festas de São João |
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A origem longínqua das Festas de S. João é possível de estabelecer cientificamente, através do método comparativo das ciências sociais, tendo por referência festividades semelhantes em toda a Europa, suas datas, sentido e intenção manifesta ou implícita. Mas outros dados históricos mais recentes (1611) revelam não só o facto da sua realização em Angra, prévia a esta data, como também alterações que lhes foram sendo impostas. Neste caso trata-se da integração de capitulares da Sé de Angra no evento, assim como a confirmação da sua “cristianização”, ou seja, a transformação num acto religioso, católico, de um evento que seria considerado de natureza “pagã”. O relato é facilitado por José Joaquim Pinheiro (1890, Épocas Memoráveis da Ilha Terceira dos Açores), mas referido também por Drummond (Anais da Ilha Terceira, I Vol., p.424) que por seu lado comenta os elogios que Maldonado faz ao facto de o Bispo Hieronimo Teixeira ter instituído em estatuto a participação regular dos capitulares da Sé de Angra nas festas de S. João, assim como o exemplo que deu, participando “montado a cavalo” (sic), nas mesmas. Passo a citar textualmente, embora com ortografia actual, o texto de Joaquim Pinheiro: Estabeleceu por estatuto o bispo D. Hieronimo Teixeira Cabral que as dignidades e capitulares da sé d’Angra assistissem às festas de S. João Baptista, no seu dia, começando pela missa solene celebrada na sua capela, às 11 horas da manhã, e acabando nas justas e torneios, que então se faziam no largo denominado Rua do Quartel, que, como já dissemos, partindo da linha ocidental das casas da rua, hoje chamada do Mota, terminava a sua largura na linha oriental de casas do rua do Pintor, vulgarmente denominada dos Quatro Cantos. E como hoje se podem considerar extintos estes tão brilhantes actos, permita-se-nos dar deles uma leve ideia desde os seus primitivos tempos, até à data em que tivemos o prazer de os presenciar na terra que nos foi berço, única de Portugal, que os conservou ate aos nossos dias, e onde eles se praticavam com tanta galhardia e nobreza, que produzia sempre admiração de quem os presenciava. Escolhidos d’entre a nobreza terceirense 28 cavaleiros, 2 para padrinhos ou chefes de ala, 4 guias e 24 para formarem as duas alas, confessavam-se no dia 24 de Junho, e depois deste religioso acto, armavam-se, e montados em garbosos ginetes ricamente ajaezados, dirigiam-se à residência do mordomo, que já também armado e montado, os esperava nos seus patios, empunhando a bandeira de S. João; cada cavaleiro era acompanhado por dois pajens a pé, condutores de lanças, espontões, e mais preparativos para as justas. Reunidos naquele local, formavam em duas alas à direita e esquerda do mordomo, e aos toques de chamarela seguiam para a sua ermida, levando cada ala na frente o padrinho, e atrás deste os guias ou chefes de quadrilhas. Era a capela no canto extremo da linha oriental da rua de S. João d’Angra, que abria um grande arco de volta inteira para esta rua, e outro igual para a rua da sé, tendo no vértice do ângulo um púlpito, e na sua parede interna de encontro à casa confinante por esta última rua, o altar, onde se celebrava, acima do qual aparecia o nicho do santo naquele dia festejado. O piso desta capela era de sobrado por ela se desenvolver num primeiro andar. Formada a la direita na rua de S. João e a ala esquerda na rua da Sé, subia para a capela o mordomo, colocava a bandeira no lugar que lhe era destinado da parte do evangelho, e desembainhando a espada tomava a sua cadeira, conservando ali enquanto duravam as cerimónias religiosas. Depois de paramentado o celebrante, vinha ao arco ocidental e aspergia os cavaleiros da ala direita, que recebiam a aspersão com os elmos suspensos no braço, e depois pelo arco setentrional aspergia a ala esuqerda, subindo em seguida ao altar para a celebração da missa. Ao evangelho aparecia no púlpito o orador sagrado, que depois de enaltecer o santo percursor do Cristo, em frases eloquentes abria aos cavaleiors as páginas de ouro da nossa história, estimulando-os para empregarem sempre o seu valor e derramarem o seu sangue pela defesa da pátria, dessa mãe sempre adorada, da religião augusta que professamos, e do rei, que, com o seu ceptro nos guiava em defesa destes dois princípios da civilização. Ao post-communio, deposta a espada, recebia o mordomo a sagrada fórmula, e partindo em seguida o celebrante para o arco da parte da rua de S. João, ali ministrava o sacramento aos cavaleiros da ala direita, que a dois e dois se aproximavam daquele local, para este sacro-santo fim, o qual se repetia também no arco da banda da rua da Sé, com a ala esuqerda. Foi pois a um destes tão respeitosos actos, que o bispo D. Hieronimo Teixeira, de quem agora nos impende o dever de louvar, com a sua religiosidade, a veneração que tinha por aqueles que em defesa da pátria, que sempre foi fidelíssima, sabiam enristar lanças e brandir espadas pela sua liberdade; que este bispo dizemos, assistiu também montado, com os seus capitulares, tendo pendente do peito a cruz sagrada, emblema da imortalidade, e guia excelsa da glória dos cristãos na guerra. Finda a missa, retiravam-se os cavaleiros a suas casas, para de tarde, de novo se juntarem, e darem imponente entrada na arena, onde tinham lugar os torneios, e mais exercícios de arma branca, que duravam por diversas tardes; isto enquanto os espanhóis, no tempo do seu domínio, lhes não adicionaram as corridas de touros misturando o que era nobre, e honroso, com o que é rude, e estúpido. Para não cansar mais a atenção do leitor, vamos entrar no fim da história, de que nos arredámos um pouco, deixando a narração das justas e torneios para outra ocasião, assim como a descrição da arena em que os terceirenses as gozavam tão alegre e devotadamente, e eram presenciadas por tantos de nossos irmãos Açorianos, que demandavam a ilha Terceira, só no propósito de as vir admirar. O autor esclarece ainda, em nota de rodapé: Talvez pareça impossível como de um sobrado do 1º andar, um cavaleiro, embora montado em um grande cavalo, pudesse receber a sagrada fórmula dali ministrada: deve-se todavia advertir que o sobrado da antiga capela de S. João não teria mais que 2,m22 de altura. |
Texto: |
| Antonieta Costa, Angra, 20/07/04 |