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História da Ilha Terceira |
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A importância da Ilha Terceira, e o começo da sua história, deveu-se ao seu porto - Angra - e aos serviços por ele prestados ao Projecto Português das Descobertas. Toda a sua história, quer militar, quer política, intelectual, social, etc., subordina-se ao papel desempenhado pela Ilha nesse projecto. Quando se deu a descoberta dos Açores (oficialmente 1420s), e se percebeu que estas ilhas poderiam proporcionar um importante apoio ao gigantesco Projecto das Descobertas, de imediato Angra do Heroísmo é escolhida, por possuir o porto natural mais seguro e capacitado para as tarefas que lhe exigiam. Com efeito, no centro do Atlântico Norte, nenhum outro porto natural possuía as qualidades de Angra. Abrigado dos ventos predominantes de Oeste pelo Monte Brasil, com uma baía suplente (Fanal) para os ventos Leste, com uma enseada dotada de óptima água corrente, a baía era ainda suficientemente profunda e larga para acolher os barcos que a demandassem. Em função destas capacidades, Angra foi apetrechada com todos os equipamentos da época para suprir as necessidades do Projecto. A ela aportavam as embarcações em dificuldades, vindas de uma longa permanência no mar alto, com as depressões, as doenças causadas pela falta de alimentos frescos e a instabilidade geral. As tempestades, das quais saíam com as velas rasgadas, os mastros partidos e o moral enfraquecido, eram outro impedimento ao bom prosseguimento do Projecto. De tal forma se tornou imprescindível a paragem em Angra que a mesma fica a ser obrigatória, depois de medida sugerida ao Rei pelo Capitão Vasco da Gama, para uma fiscalização mais apertada das riquezas transportadas para ao reino, a partir deste porto exterior. Foi criada a Provedoria das Armadas, que funcionou em colaboração com o Posto da Alfândega, controlando tudo o que passava pelo porto (sendo obrigadas a nele passarem todas as embarcações que cruzassem o Atlântico). As mercadorias eram arroladas e seguiam para o reino já devidamente identificadas, impedindo-se assim as perdas que acompanharam a má gestão do início da exploração colonial. Grande parte desta informação foi transmitida por um Holandês J. H. Linschoten (1563/1610), que viveu em Angra e a desenhou magistralmente, lá permanecendo um pouco mais de dois anos, forçado por um naufrágio. Com base nas descrições, iconográficas e literárias, que Linschoten produziu sobre as funções desempenhadas pela Baía de Angra, no Projecto das Descobertas Portuguesas, percebe-se o porquê da sua classificação como Património da Humanidade. Numa época em que o Mar era um mistério povoado de monstros e a linha do horizonte um precipício onde este se escoava; em que se pensava ser a Terra plana e o Sol girar à sua volta, em pleno século XV, montaram os Portugueses um sistema de apoio à navegação, no coração do Atlântico Norte. A Baía de Angra estava preparada para fornecer todos os serviços necessários: No estaleiro da Prainha reparavam-se as naus danificadas, coziam-se as velas, construíam-se novas embarcações. No Hospital da Misericórdia tratavam-se os doentes. A casa da Alfândega controlava as cargas e impostos. As ‘Bicas’ forneciam água para a aguada. Finalmente pelo Porto das Pipas eram abastecidas as tripulações de víveres e outros bens. O Castelo de S. Sebastião protegia a Baía de inimigos. |
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Estas funções, que condicionaram o destino da Ilha durante os dois primeiros séculos, influenciaram também a sua vida social e política. O início da sua governação foi conturbado. Entregue sucessivamente a Jácome de Bruges, Martins Homem e João Vaz Corte Real, de modo bastante questionável, acabou (após o desaparecimento de J. Bruges) por fixar-se num modelo de Capitania de Donatários que dividia a Ilha em duas Capitanias: Angra e Praia. Inicialmente projectada a defesa de Angra, através do Castelo de S. Luís (agora, ocupado pelo monumento da Memória), para contrariar inimigos vindos de terra, segundo a perspectiva medieval trazida do reino, resultante das lutas internas entre senhores feudais, cedo se percebe que é na baía que se situa o verdadeiro perigo. São construídos pequenos fortes, no Monte Brasil e cerca de 1550 é mandada construir, por D. Sebastião, a Fortaleza de S. Sebastião, assim como um outro forte em frente, no Monte Brasil, com o qual se cruzava o fogo, conseguindo impedir a entrada na baía. Em 1576 é na Fortaleza de S. Sebastião que se instala a Alcaidaria Mor, sendo Manoel Corte Real o primeiro Alcaide empossado. Anteriormente (1446?), João Vaz Corte Real tinha continuado a construção de um imponente edifício (a Casa do Capitão), iniciada por Martins Homem, passando esta a Residência oficial do governante, o que desloca todo o eixo do poder para mais próximo da baía, afastando-se do Forte de S. Luís. Um século mais tarde, em Cantagalo, mesmo sobre a baía, a família Canto (António Pires do Canto) manda construir o Solar dos Remédios (1572), albergando a Provedoria das Armadas, na sequência da construção da Ermida dos Remédios (1556), a maior Ermida particular dos Açores, firmando assim a verdadeira função da Baía de Angra. Para além do controlo fiscal das mercadorias e outros bens em circulação pela Baía de Angra, era função do Provedor das Armadas providenciar alimentos e bebidas requeridos pelas embarcações. O fornecimento de víveres com garantia de duração de meses, era uma empreitada que envolvia todas as ilhas do grupo central, especialmente o Pico, que se especializou nessa tarefa, enviando para Angra as suas produções. Peixe e carne salgados e secos ao sol, o ‘biscoito das Armadas’, cozido e recosido, em conformidade com o número de meses que teria de aguentar em mar alto, eram enviados em pipas, para o Porto das Pipas, onde aguardavam o embarque definitivo. Mais tarde, laranjas e outros frutos, também faziam parte destes provimentos. Outras produções da Ilha eram exportadas, passando pelo controlo da Alfândega/Provedoria. O pastel, uma planta que se desenvolveu muito bem no clima e solo dos Açores e que depois de devidamente processada, providenciava uma tinta com a coloração azul, muito procurada na produção têxtil. O linho, em peça ou bordado, era altamente considerado no mercado Holandês (muitos dos panos da Flandres eram fabricados na Terceira). Cereais, produzidos em grandes quantidades, eram exportados para o continente e para as praças de África. Na história económica da Ilha, estas produções, assim como o cultivo da laranja, para consumo das tripulações (evitando o escorbuto), foram as mais marcantes. No entanto, outros produtos, como a marcenaria e carpintaria ficaram famosos. As caixas de cedro principalmente, que eram comparadas às de sândalo, obtiveram alguma importância e renome no estrangeiro, especialmente na Inglaterra, onde ainda é possível encontrá-las. Por outro lado, a história da Ilha foi também condicionada por uma outra vertente dos Descobrimentos, a da religiosidade. Como a conversão das populações de ‘gentios’ ao catolicismo, nas terras povoadas e recém descobertas, estava incluída no Projecto das Descobertas, Angra correspondeu a esse imperativo, chegando a possuir, dentro dos limites da cidade, oito Conventos: S. Gonçalo, Graça, Esperança, Jesuítas, S. Francisco, Conceição, Capuchas e Capuchos, sendo que no todo, a Ilha Terceira possuía pelo menos onze. Durante o primeiro século, toda a educação (religiosa e laica) esteve entregue exclusivamente aos Frades Franciscanos, por encargo da Ordem de Cristo e do Rei, até à criação da Diocese de Angra, em 1534. As convulsões políticas que originaram a perda de nacionalidade, no final do século XVI, também afectaram particularmente a Terceira, que nunca acolheu com agrado a perda de soberania a favor de Castela. Combateu as várias tentativas de desembarque dos Espanhóis, tendo a última sido coroada de grande êxito, com a derrota da Armada Espanhola na Baía da Salga. Com todo o restante País submetido a Castela, a Ilha Terceira tornou-se assim, o único território Português, situação que se manteve durante cerca de dois anos, marcando a sua história com esse ponto alto. Quando finalmente é tomada, a Ilha sofre a vingança dos novos senhores, através de punições como a forca, o desmembramento e a decapitação, aplicadas aos moradores mais aguerridos, sendo os seus corpos arrastados pelas ruas de Angra. O Pico das Cruzinhas, no Monte Brasil, é palco de cenas atrozes, onde os enforcados eram deixados, durante dias, à vista dos moradores da cidade. Os cerca de sessenta anos do poder Espanhol marcam de novo a história da Ilha, que se faz em negociações, cedências e também compadrio com o ‘Castelo’, compulsivamente construído pelos próprios Angrenses (entre outros, como prisioneiros das galés, escravos, etc.), para refúgio dos Espanhóis, sempre receosos das investidas dos locais. Com as lutas pela independência a Terceira volta a marcar posição no plano nacional, pois foi sempre bastião de resistência, tendo então assumido um papel decisivo no desembarque do Mindelo. A partir do século XVIII, porém, com o decréscimo do tráfego marítimo relacionado com as Descobertas, dificuldades várias travam o crescimento. O centro económico desvia-se para S. Miguel, arrastando consigo o poder político. A Ilha vê-se decapitada. A solução encontrada foi a da emigração, que durante os cerca de três séculos seguintes a esvaziaram de muitos dos seus habitantes mais produtivos. Por outro lado, saía para a capital ou para Coimbra, para estudos, uma outra importante parte da população, que muitas vezes não regressava. A meados do século XX, a construção de uma base aérea de grandes dimensões, com as dinâmicas transversais que são características destes empreendimentos, permite o refazer de parte do tecido económico da Ilha, insuflando-lhe novo alento. A sua posição estratégica volta a ser realçada, desta vez, por razões diferentes. No lugar do porto marítimo, surge um porto aéreo. Com a instalação de uma universidade, dividida por três pólos, refaz-se gradualmente o capital intelectual da Ilha. Integrada num projecto de desenvolvimento turístico, possuidora de uma activa vida cultural, na qual as tradições ancestrais europeias estão ainda muito presentes, a Terceira enfrenta um futuro promissor. |
Texto: |
| Antonieta Costa, Angra, 20/07/04 |