A Angra de Gaspar Frutuoso

 

Do trato, e governo da Cidade de Angra

132. Constando a cidade de Angra de vinte grandes ruas, todas largas, ladrilhadas e calçadas, como já as apontámos, e sendo todas de nobre casaria, duas circunstâncias a fazem muito vistosa; primeira, que nas tais ruas (excepto alguns arrabaldes da Cidade) nenhuma casa há despegada de outra, nem nos altos nem nos baixos da parte da rua, nem casa terreira se mete entre as sobradadas, nem quintal ou jardim sai à rua; com que ficam as ruas com grande formosura continuadas sempre. Segunda circunstância é, que conferem as casas quase todas de paredes feitas de pedra e cal e havendo muitas de dois sobrados na face, e por detrás três; contudo não costuma haver moradores diversos, uns que morem por baixo e outros por cima, nem que pela mesma portada se serviam diversos moradores, mas que do mesmo é todo o quintal que tem casa para trás, com que até por dentro as casas são mais limpas, mais desembaraçadas e mais largas; donde vem que até as travessas, que vão de uma rua para outra, são ruas bastantes, pela muita largueza que vai de uma a outra rua com os quintais que medeiam de uma e outra parte.

133. O trato da Cidade é tão nobre que além das liteiras do Bispo, e algumas Dignidades Eclesiásticas, e do Governador do Castelo, Capitão mor da Cidade, há outras muitas na Cidade dos ricos morgados dela, e ainda outras carruagens de homens e de mulheres, das quais as mais nobres antigamente não iam à Igreja, e menos a visitas, senão em ricas cadeiras fechadas, e de mão, que chamavam cadeiras de mulheres, e a cada uma levavam dois negros, e às ilhargas a pé ião os criados e criadas; as outras nobres mulheres, por ser tão bem assentada a Cidade, e ter tão perto as Igrejas, iam a pé, mas nunca sem criada, nem sem homem diante, que bem vestido acompanha por criado e algum filho ou irmão leva, e trás a mãe, ou a irmã pela mão, e a criada ou criado vão logo atrás; e de outra sorte se não via mulher nobre pelas ruas, e nem ainda assim, senão nos dias Santos para as Igrejas de manhã, e de tarde a pagar as visitas, e sempre com recado antecedente, que lá vão aquela tarde; e das mulheres plebeias, nem a vender pelas ruas, nem em tendas a vender, ou a vender-se, se via mulher alguma, nem ainda na pública Ribeira, mas todas em suas casas cuidando e tratando delas; e só homens apregoam e vendem em toda a parte. Este era o estilo há menos de cinquenta anos, e de então para cá, não sei o que o tempo tem mudado.

Fonte:

Gaspar Frutuoso, “Livro VI da Regia Ilha Terceira”, História Insulana, Ponta Delgada, 1981, p. 291/292