Angra na época dos Descobrimentos

 

Na busca de meios para a concretização da fantástica epopeia dos Descobrimentos, na primeira metade do Século XV, a Baía de Angra, na Ilha Terceira, surge aos mareantes como um sonho, brilhando na exuberância da sua beleza.
Recorde-se que a concepção da Terra era ainda muito fantasiosa e que a chegada a um ponto seguro, no meio do Atlântico seria tido como uma bênção dos céus.
A exemplificar a situação, veja-se esta pintura de Jerónimo Bosch, de cerca de 1500, a “Criação do Mundo” (portas exteriores, Museu do Prado) e poderá perceber-se a distorção da percepção da época.

A Baía de Angra foi portanto vista como local seguro, como único porto natural no Atlântico Norte, com a profundidade necessária e com a capacidade de oferecer não só abrigo contra tempestades, mas também, na sua área circundante, apoio logístico às embarcações e aos navegadores.
Observando qualquer mapa do Oceano Atlântico Norte, vemos que, à saída de Lisboa, as embarcações do século XV encontrariam, entre o continente Europeu e o Americano (então desconhecido, mas procurado) os Arquipélagos da Madeira e dos Açores. A Madeira situa-se demasiado a Sul para poder prestar auxílio na fase crítica da viagem, quando havia que lutar contra as correntes marítimas e por vezes, também ventos contrários.

Restavam os Açores, e nestas ilhas, a Terceira era a única com um porto natural, isto é: pronto a ser utilizado nas suas condições próprias, quase sem necessitar alterações.
A morfologia da baía, resultante das reentrâncias que ladeiam o Monte Brasil, um pequeno vulcão exterior à Ilha, que se ligou a esta por um istmo, forma baías de cada lado. A altura e proximidade do Monte Brasil, transforma-o numa espécie de biombo natural, abrigando tanto em altura como em eficiência, dos ventos predominantes de Oeste, para além de a sua encosta se prolongar na mesma inclinação até ao fundo, o que permitiu a criação de uma baía profunda.

O Monte Brasil, ao extravasar o perímetro regular da Ilha, forma a Ocidente, as baías do Fanal e da Silveira, demasiado expostas aos ventos predominantes de Oeste, mas boas noutras circunstâncias; e a Oriente, a Baía de Angra, constituída por três pequenas bolsas, uma das quais em forma de enseada, só fica exposta pelo lado Sul ou Sudeste (podendo então, nesse caso, as embarcações refugiarem-se na Baía da Praia da Vitória, ou na das Quatro Ribeiras).

A importância que esta configuração traz a Angra é visível na ênfase que lhe é dada, tanto no mapa do códice de Valentim Fernandes (*1) , como nos outros documentos que a representam, descrevendo as funções que lhe foram atribuídas. De tal modo foi importante, tanto no abrigo contra tempestades como na prestação dos serviços ligados à navegação desses tempos, que se pode pensar que, sem estas circunstâncias, tanto as naturais como as criadas, o projecto das descobertas teria ficado seriamente comprometido.
Sabemos que a Ilha Terceira se transformou no nó que interligou todos os feixes de comunicação com o Projecto dos Descobrimentos Portugueses e Europeus. Dos serviços de logística criados falam os cronistas de então, servindo-se das Cartas que J. Lischoten (um Holandês com prática de desenho destas Cartas, que, devido a um naufrágio se viu retido nem Angra durante cerca de dois anos) elaborou em 1590, com a finalidade de informar o Governador da Ilha e o Rei. Para a execução deste trabalho foi-lhe concedida licença de circulação por toda a Ilha, liberdade que poucos tinham. A Carta da Ilha transforma-se assim num documento precioso, pois embora o desenho de Linschoten possa conter aspectos estandardizados, no sentido de serem utilizados uniformemente na descrição de outros locais, muitos são de tal modo pormenorizados que não podem ser entendidos nessa categoria.

Especialmente a informação sobre a baía e suas funções é muito descurada. E no entanto, será devido ao desempenho dessas funções que Angra deve as honras concedidas pela UNESCO.
O Pe. António Cordeiro explica assim o porto e o ponto principal de ligação: o cais de Angra: “Começa pois Angra, com a sua baía que fica entre o Castelo de S. Sebastião, ou Porto de pipas, da parte do Oriente, e o outro Castelo, ou Praça grande de S. João Baptista, que só distam um pequeno quarto de légua entre si e outro quarto até à Cidade, e é baía capaz de grandes frotas, que se recolhem e provém ali com toda a segurança de quaisquer inimigos, pela tanta e tão próxima artilharia de uma e outra banda. O ancoradouro é limpo de cachopos e bancos de areia, e firmam nele as âncoras tão seguramente que nunca arrastam e só quebrando desamparam o navio …./… “Termina-se este grande porto com o já referido cais, que começa a sair da principal porta da Cidade, onde está corpo da guarda e casas, por cima da soldadesca paga e perpétua …/.…até dar na principal parte da Cidade, de onde sai para o mar uma larga e boa calçada, e logo começa a entrar pelo mar um largo e alto cais de cantaria, com várias escadas para o mar e ferros a que se prendem os caravelões, que vão e vem das outras Ilhas carregados, e da mesma sorte os barcos de pescar, os barcos de descarga e desembarcos dos navios, sem ser necessário que mariola algum meta o pé na água, pois tudo vem seco e limpo acima do cais, que entra pelo mar um bom tiro de espingarda, e um tiro de mosquete do castelo de S. Sebastião e pouco menos do Porto das pipas.” (História Insulana, Pe. António Cordeiro, 1717. SREC, Angra, 1981, p.269)
O que Cordeiro descreve por ter lido doutros, Gaspar Frutuoso, contemporâneo de Linschoten, viveu directamente. Também ele se mostra entusiasmado com o que se passava em Angra e com as suas condições excepcionais:

“ Da ponta desta fortaleza se vai fazendo uma grande baía, de um quarto de légua, até outra ponta, que se chama do Brasil, que é um morro grande, alto, comprido, a modo de ilhéu, largo na ponta, que se sai ao mar; é estreito onde está pegado na terra, tanto como um tiro de besta da terra e até começar a subir ao alto, onde está outra fortaleza …” (in Saudades da Terra, Livro Sexto, p.24)

Angra adaptou-se à modernidade sem perder as características que a distinguiram no seu início


*1 - Segundo Maduro Dias, numa Biblioteca de Munique

Nota:

Toda a informação referente a Linschoten (texto e desenhos) é baseada na sua obra Itinerário, Viagem ou Navegação de Jan Huygen van Linschoten para as Índias Orientais ou Portuguesas, Edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, da autoria de Arie Pos e Rui Manuel Loureiro, Lisboa, 1997