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Baía de Angra |
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Do ponto de vista do Projecto das Descobertas, o porto de Angra, na Ilha Terceira, foi considerado como o melhor porto natural de todo o centro do Atlântico Norte, transformando-se portanto, rapidamente, em ponto de escala preferido (depois, obrigatório), não só para abrigo e provimento das embarcações, mas para controlo fiscal dos produtos transportados. Este facto foi utilizado como argumento principal no processo de classificação de Angra como Património da Humanidade
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“ Inicia-se no Porto das Águas de S. Sebastião, ao qual se segue um outeiro, com um pequeno monte onde está uma Fortaleza cercada de muralha, com porta para a Cidade. Do alto desta Fortaleza desce abaixo uma abóbada ou coberta, até uma plataforma onde bate o mar, e tem catorze peças de artilharia e quase todas de bronze e grande calibre, que não só defendem o porto da Cidade, dentro do qual já estão, mas também a chegada de inimigos ao antecedente porto das Águas de S. Sebastião, que reza a história, foi fundada ou reformada pelo próprio belicoso Rei D. Sebastião. Ao pé desta Fortaleza, a espaço de um tiro de besta, está um pequeno vale a que chamam Porto de pipas, por ali desembarcarem os caravelões, ou barcos de duas e três velas, que ordinariamente trazem e levam pipas das outras ilhas, e ainda que para a parte sul ou mar, é costa de calhau, tem um muito bom cais e por entre ele e a terra, ou costa da Ilha, entra brandamente o mar e se recolhem barcos e caravelas e às vezes alguns navios, e ficam seguros da tempestade de Sueste, que quando corre forte faz grande dano nas embarcações ancoradas, e se o porto se alargasse para os grossos calhaus que entre ele e o mar vão, seria Régio porto, e dos navios seguro estaleiro. |
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Para este porto há uma só porta da parte da Ilha, que vem descendo a igualar-se com ele, por caminho largo e bom. |
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Deste porto para Poente vai a Ilha encurvando-se para dentro com rocha alta e parapeito por cima, e em baixo há um campo que serve de matadouro da vaca, que dali vai para os açougues da Cidade, de onde a este campo vem uma ribeira que vai dar ao mar, ainda mais abaixo, e deixa sempre o matadouro com muita limpeza, com um caminho em roda para a Cidade e muralha por cima, até dar na principal parte da Cidade, de onde sai para o mar uma larga e boa calçada, e logo começa a entrar pelo mar um largo e alto cais de cantaria, com várias escadas para o mar e ferros a que se prendem os caravelões, que vão e vem das outras Ilhas carregados, e da mesma sorte os barcos de pescar, os barcos de descarga e desembarcos dos navios, sem ser necessário que mariola algum meta o pé na água, pois tudo vem seco e limpo acima do cais, que entra pelo mar um bom tiro de espingarda, e um tiro de mosquete do castelo de S. Sebastião e pouco menos do Porto das pipas. Da dita principal porta da Cidade vai já mais baixo o círculo da Ilha, outro tiro de pistola, a dar em um areal, que chamam Prainha, e que tem porta grande para a Cidade, que chamam Portão da Prainha, com muralha para a Cidade. Aqui neste areal faziam-se também muitos navios e galés, que defendiam as Ilhas de piratas. Agora em tal areal só se desfazem navios, quando em alguma tempestade quebram as amarras e vêm dar à costa. Com pouco entremeio de rocha e com o mesmo círculo se segue em baixo outro menor areal chamado o Porto Novo, que pega já com a Fortaleza grande e o célebre Monte Brasil. Para o porto, ou portinho novo, por ser ali rocha alta da Ilha, não há senão uma estreita aberta por onde a pé se desce abaixo e não tem outra serventia para a Cidade. |
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Começa pois Angra, com a sua baía que fica entre o Castelo de S. Sebastião, ou Porto de pipas, da parte do Oriente, e o outro Castelo, ou Praça grande de S. João Baptista, que só distam um pequeno quarto de légua entre si e outro quarto até à Cidade, e é baía capaz de grandes frotas, que se recolhem e provém ali com toda a segurança de quaisquer inimigos, pela tanta e tão próxima artilharia de uma e outra banda. O ancoradouro é limpo de cachopos e bancos de areia, e firmam nele as âncoras tão seguramente que nunca arrastam e só quebrando desamparam o navio. |
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Fica porém este porto em direitura ao Sueste, a quem chamam lá o vento Carpinteiro, porque algumas vezes é tão rijo que se as amarras não são boas e de bom fio, as faz rebentar e dá com a embarcação no areal da Prainha, ou no Porto Novo, e sempre a gente se salva e parte da carga. |
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Termina-se este grande porto com o já referido cais, que começa a sair da principal porta da Cidade, onde está corpo da guarda e casas, por cima da soldadesca paga e perpétua. Ao entrar da cidade, à mão esquerda, está a Real casaria da Alfândega, com terreiro ladrilhado de cantaria e muralha sobre o mar, capaz de artilharia. E aqui é o passeio, principalmente dos homens de negócio e Mestres dos navios, com boa vista deles e do porto todo. |
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A dita Alfândega, além dos seus Tribunais, tem grandes despejos e armazéns para todo o desembarco de navios, de Frotas e de Armadas e para o provimento necessário. À mão direita se alarga um terreiro de calçada com um chafariz no meio, alto e de muitas bicas de doce e boa água, e ainda à mão direita volta sobre o mar, e ao pé da rocha da Ilha, junto à muralha de baixo, um caminho, e quase rua, que chega ao matadouro. Mas nem se comunica neste baixo com o Porto de pipas e menos com o Castelo de S. Sebastião. “ |
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Nota: |
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Toda a informação referente a Linschoten (texto e desenhos) é baseada na sua obra Itinerário, Viagem ou Navegação de Jan Huygen van Linschoten para as Índias Orientais ou Portuguesas, Edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, da autoria de Arie Pos e Rui Manuel Loureiro, Lisboa, 1997 História Insulana, Pe. António Cordeiro, 1717. SREC, Angra, 1981, p.269) |