Paineís esculpidos, na Igreja da Conceição

 

Angra, como ponto central de todas as trocas com o Novo Mundo, foi também núcleo de um tráfego de obras de arte destinado a esses povos “gentios”, nomeadamente concernente ao espírito de missão que a Igreja Católica assumiu com a catequização destes, no Projecto das Descobertas.


Descida da Cruz, séc.XVII, madeira de cedro, Igreja da Conceição, Angra


Neste sentido, Angra tornou-se não só um entreposto, mas também um centro produtor destas obras (segundo Francisco Ernesto Martins, “Os Mestres da Sé”). Como tal, contém nos seus espólios muitos destes documentos histórico/artísticos, que aliás estão espalhados por todas as Ilhas do Arquipélago. Devido ao facto de a arte sacra ter utilizado os conteúdos das suas obras artísticas como potenciais instrumentos pedagógico/teológicos, transformados em autênticos tratados esotéricos, nenhum ponto de cor ou de luz era gratuito ou isento de intenção, neste projecto de utilizar a pintura e a escultura como veículos da mensagem cristã.

Um exemplo elucidativo desta tarefa está nos painéis em talha pintada, presentemente afixados às paredes interiores laterais da Igreja da Conceição.


Painel em talha dourada, madeira de cedro, séc. XVII


Os painéis terão pertencido à Capela dos Passos, da Igreja do Colégio dos Jesuítas de Angra, onde fariam parte de um conjunto de três que decorava os lados visíveis do andor com a imagem de Cristo Crucificado. Segundo a mesma fonte (autoridade eclesiástica), representariam cenas da vida do Povo Hebreu, durante os quarenta anos que permaneceu no deserto.

O cacho de uvas simbolizaria os resultados de uma exploração enviada à Palestina, onde a informação sobre a fertilidade dos frutos teria sido assim representada.


Painel em talha dourada, madeira de cedro, séc. XVII


O segundo painel ilustraria uma passagem do quotidiano no exílio. De uma outra fonte, porém (Bíblia – Antigo e Novo Testamentos, da Editora Abril LTDA, S. Paulo, 1965), foram retiradas as ilustrações abaixo apresentadas, cujas legendas parecem indicar outras simbologias.

No caso do transporte do pretenso “cacho de uvas”, a ilustração retirada da Bíblia apresenta uma cena bastante semelhante à do painel do Colégio dos Jesuítas de Angra (que agora se encontra na Igreja da Conceição), parecendo tratar-se do mesmo objecto (um cacho de uvas gigantesco). Neste caso, porém, retrata outro acontecimento. Seria esta uma simbologia recorrente, muito empregue nesse tempo?


“O cumprimento da promessa de Abigail impede uma guerra”, Donauschingen – Alemanha - Biblioteca dos Príncipes de Fürsenberg


Se assim fosse, no caso da ilustração da Bíblia, as uvas estariam a representar a situação de um pretenso pagamento de promessa que serviu para evitar uma guerra, o que significaria uma temática diversa da referida na outra obra.

A mesma ambiguidade parece verificar-se com a simbologia do segundo painel, em relação à correspondente ilustração bíblica.


Os filisteus apossam-se da Arca levando-a para Azot, Donauschingen – Alemanha Biblioteca dos Príncipes de Fürsenberg


Pela legenda desta última, tratar-se-á de um acontecimento importante: o roubo da Arca do Testamento, perpetrado por Filisteus. Este roubo, que foi um acontecimento historicamente documentado, foi causa de várias guerras entre este povo e os Israelitas, após as quais, e segundo reza a lenda, por terem os transgressores sofrido alguns azares, devidos a “pragas”, lançadas pelos Israelitas, vingando o acto do roubo, a arca foi devolvida.




Na realidade, o verdadeiro sentido implícito nestas, assim como em muitas outras obras de arte do passado, ainda não terá sido percebido.