Porto de Pipas

 

Partindo da vantagem que Angra apresentou, logo de início, como porto natural de excepcional qualidade, gozando de uma configuração que lhe permitia, em cada uma das suas três bolsas, executar as manobras de apetrecho necessárias à navegação de então, retoma-se o assunto para apresentar mais algumas informações, que melhor expliquem alguns dos aspectos fulcrais na classificação de Angra como Património da Humanidade.
Numa das bolsas, no Porto das Pipas, tanto Linschoten (1590) como Gaspar Frutuoso (1580) fazem referência ao assunto que, mais tarde, o Padre António Cordeiro (1717) também descreve:
“ … o porto das Águas de S. Sebastião, que reza a história, foi fundada ou reformada pelo próprio belicoso Rei D. Sebastião.
Ao pé desta Fortaleza, a espaço de um tiro de besta, está um pequeno vale a que chamam Porto de pipas, por ali desembarcarem os caravelões, ou barcos de duas e três velas, que ordinariamente trazem e levam pipas das outras ilhas, e ainda que para a parte sul ou mar, é costa de calhau, tem um muito bom cais e por entre ele e a terra, ou costa da Ilha, entra brandamente o mar e se recolhem barcos e caravelas e às vezes alguns navios, e ficam seguros da tempestade de Sueste, que quando corre forte faz grande dano nas embarcações ancoradas, e se o porto se alargasse para os grossos calhaus que entre ele e o mar vão, seria Régio porto, e dos navios seguro estaleiro.
Para este porto há uma só porta da parte da Ilha, que vem descendo a igualar-se com ele, por caminho largo e bom.”
História Insulana, Pe. António Cordeiro, 1717. SREC, Angra, 1981, p.269

O desenho de Linschoten da Fortaleza de S. Sebastião e do Porto das Pipas é bem elucidativo das funções desempenhadas por esta logística: armazenava víveres e outras mercadorias vindas das outras ilhas do grupo central, para depois com elas serem abastecidas as embarcações de alto mar.
Frutuoso diz :
“Pegado com esta fortaleza, espaço de um tiro de besta pêra a banda da cidade, está um porto, fechado de alto e largo muro pela banda da terra, que não tem mais que uma porta muito pequena, por onde não cabe senão uma só pessoa, que se chama o porto das Pipas, no qual se recolhem cinco e seis navios, posto que sejam de setenta e oitenta toneladas, e ali varam arriba e invernam e consertam, e, ainda que haja tormentas grandes, não recebem dano; no qual porto também fazem navios grandes e pequenos, como foi um Bastião Merens, dos nobres da terra, que fez nele duas naus muito grandes, e João de Beteancor, Nicolau Dias, João Cordeiro, João Martins, do Porto Judeu, e outros muitos fizeram naus e navios grandes e pequenos e barcos de toda a sorte; neste porto está um cais novo, que mandou fazer João da Silva do Canto, grande parte à sua custa, que foi grande bem pêra a salvação dos navios.” (Frutuoso, Saudades da Terra, Livro Sexto, pp.23,24)

A informação de que o Porto das Pipas teria um acesso muito restrito, pelo lado de terra, faz pensar que o aprovisionamento de víveres e outras mercadorias que nele eram embarcadas, só era feito pelo mar.

Vários cronistas referem que entre a Ilha Terceira e as restantes Ilhas do Grupo Central do Arquipélago se estabeleceu um comércio importante, com tráfego constante destes bens, para provimento das embarcações de passagem por Angra. Os víveres (peixe seco ou salgado, carne seca e defumada, biscoitos, frutas, farinha, etc.) chegavam em barricas ou pipas, ficando armazenadas no Porto das Pipas, então totalmente isolado e com acesso apenas por uma porta, sob a guarda da Fortaleza de S. Sebastião (e bem pequena, segundo informam). Um dos principais fornecedores era a localidade de Santa Cruz das Ribeiras, nas Lajes do Pico, auto-suficiente na construção de embarcações de cabotagem, e na pesca e secagem de peixe para comerciar (séc. XVI).
No entanto, Frutuoso fala de um comércio intenso “ … de que se fazem carregações pera o reino e outras partes …/… muito pastel, que se leva pêra Frandes, Inglaterra, Castela e outras províncias …/… carnes, pescados e criações de gados …/… cedros, loureiros e faias, e um pau branco e outro amarelo, a que chamam sanguinho e outro vermelho, chamado teixo, que se estimam muito…”

Não se percebe como eram passadas para bordo estas mercadorias, sendo o Porto das Pipas de tão difícil acesso. Para mais, ficando o cais isolado, pelo lado do mar, não havendo ligação à cidade, e por terra apenas por uma pequena porta.
A seguir à rocha de Cantagalo, entrando pelo lado do cais de Angra, ficava o Matadouro, (talvez no sítio da actual Moagem), fora da área de maior movimento, mas ainda suficientemente perto para que a carne a transportar para bordo (ou para os açougues da cidade) fosse facilmente manipulada.
Com esta descrição toma forma mais uma das funções do Porto. Acresce que uma derivante da Ribeira dos Moinhos foi posta a correr à sua beira, para garantir uma higiene básica: “… deste porto para Poente vai a Ilha encurvando-se para dentro com rocha alta e parapeito por cima, e em baixo há um campo que serve de matadouro da vaca, que dali vai para os açougues da Cidade, de onde a este campo vem uma ribeira que vai dar ao mar, ainda mais abaixo, e deixa sempre o matadouro com muita limpeza, com um caminho em roda para a Cidade e muralha por cima…” (A. Cordeiro)
A mesma Ribeira serve “As Bicas”, local oficial da aguada, e de grande movimentação, pelo que se vê de pequenas embarcações à sua volta.

“…afora outro [chafariz] que sai junto ao cais, donde se provêem todos os navegantes e armadas,” (Frutuoso, Saudades da Terra, Livro Sexto, pp. 29,30)

Nota:

Toda a informação referente a Linschoten (texto e desenhos) é baseada na sua obra Itinerário, Viagem ou Navegação de Jan Huygen van Linschoten para as Índias Orientais ou Portuguesas, Edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, da autoria de Arie Pos e Rui Manuel Loureiro, Lisboa, 1997