Igreja e Hospital

 

“Saindo da porta do mar à rua Direita, principal, está uma fermosa casa da Misericórdia, de três naves e três portais, com seu hospital anexo …/… proveitoso refúgio de muitos enfermos e pobres da terra e de muitos mais que pelo mar vêm de fora, de muitas partes, por ser o porto desta cidade escala de muitas navegações.” (Frutuoso, Saudades da Terra, Livro Sexto, 1580s, pp. 27,28)
É assim que Frutuoso reflecte sobre esta actividade da Misericórdia e seu Hospital: “refúgio de enfermos e pobres”. Segundo a lógica do século XXI, percebe-se que estas seriam funções muito importantes, no Projecto das Descobertas, pois as doenças e geral debilidade, quer física, quer psicológica, desenvolvidas durante aquele tipo de viagens, poderia ser fatal para o Projecto, se não tem sido cuidada, como foi.

Pormenor de pintura encontrada na Igreja da Misericórdia, a forrar o altar mor.

Hospital

A Casa da Misericórdia, instituída por João Vaz Corte Real, a partir da Ermida de Santo Espírito, foi oficializada como Hospital por D. João II, em 1492. Confirmada depois por D. Manuel, a 3 de Agosto de 1508, sendo dotada de rendimentos. No Hospital tratavam-se principalmente enfermos que chegavam nas naus, enfraquecidos pelas longas viagens.

A renda própria do templo da Misericórdia, era por vezes integrada na do Hospital, constando as duas de foros de propriedades dos primeiros donatários, trigo da feitoria da Alfândega local e de dádivas da Casa Real.

Destas rendas eram pagos médicos, enfermeiros e o sustento dos enfermos, cuja população aumentava também, com gente das “Ilhas de baixo”.
A actual Igreja da Misericórdia foi construída em 1728 sobre a base do templo anterior, mandado edificar por João Vaz Corte Real no último quartel de 1400. A primeira pedra deste segundo templo foi lançada nos seus alicerces em 21 de Outubro daquele ano, e inaugurado em 4 de Junho de 1746.

As obras de restauro a que foi submetida após o sismo de 1980 revelaram as estruturas da primitiva igreja de Santo Espírito, que vem descrita na carta de Linschoten, orientada no sentido Oriente/Ocidente e que se ligava ao edifício do Hospital por uma ponte que passava sobre a rua de Santo Espírito.
- Sampaio, Alfredo da Silva, “Memória sobre a ilha Terceira”, Imprensa Municipal, Angra do Heroismo,1904, pp. 231 a 232 « FG/B-30283 ».

Mas muitas outras Instituições religiosas, com funções paralelas, foram criadas em Angra. Recorde-se que “expandir a fé e o Império” era um dos objectivos do Projecto das Descobertas. É assim que se compreende que uma pequena cidade, de população reduzida, pudesse albergar oito conventos (sem contar com os que foram construídos na Praia e em localidades rurais da Ilha). Mesmo admitindo um ajuste à mentalidade da época, conhecida como de grande fervor religioso, este número parece indicativo de um outro tipo de pressão, exercida dentro e fora da Igreja Católica, e relativo ao seu papel a ser desempenhado no contexto das Descobertas.

Nota:

Toda a informação referente a Linschoten (texto e desenhos) é baseada na sua obra Itinerário, Viagem ou Navegação de Jan Huygen van Linschoten para as Índias Orientais ou Portuguesas, Edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, da autoria de Arie Pos e Rui Manuel Loureiro, Lisboa, 1997